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quarta-feira, 11 de março de 2020

PEPA DELGADO - 75 ANOS DE SAUDADE (A CONSAGRAÇÃO NOS PALCOS)

PEPA DELGADO
Arquivo Marcelo Bonavides



Há 75 anos falecia a atriz e cantora PEPA DELGADO.

Pepa Delgado de Moraes nasceu em Piracicaba (SP), em 21 de julho de 1886.

Nas primeiras décadas do século XX, ela seria uma das mais famosas atrizes-cantoras de nosso teatro, atuando em revistas, operetas, dramas, comédias e burletas.

Também se destacaria gravando discos entre 1904 e 1910, bem como atuando no cinema brasileiro, quando esse se iniciava.


PEPA DELGADO
Arquivo Marcelo Bonavides


Pepa Delgado deu uma grande contribuição para nossa cultura através de seu trabalho. Ela faleceria em 11 de março de 1945, deixando esposo e um filho.


Há quase três décadas venho pesquisando a vida e obra de Pepa Delgado. Esse trabalho de pesquisa resultou em uma monografia (Pepa Delgado – A Trajetória de uma atriz-cantora: 1886 – 1945) na minha conclusão no curso de Licenciatura em História, pela UECE (Universidade Estadual do Ceará). Nessa pesquisa, tive a ótima orientação do Prof. Dr. Francisco Damasceno. Dessa forma, podemos trazer para a Academia a vida e obra de Pepa Delgado.

Em homenagem à queria atriz-cantora, trago uma parte de minha monografia onde falo sobre a consagração de Pepa Delgado nos palcos. Em breve, trarei o restante do capítulo.



“3.2 CONSAGRAÇÃO NOS PALCOS

Com mais de uma década de carreira artística, com experiência em discos, cinema e, principalmente, nos palcos, Pepa Delgado era uma atriz-cantora completa, interpretando com segurança, estudando bem seus papéis e possuidora de uma bela voz. A imprensa sempre destacava suas qualidades aliada a uma graça natural, que podemos associar a um possível carisma perante a plateia. Seguindo o conselho de profissionais mais experientes, como o dramaturgo Arthur Azevedo, ela procurou se instruir mais nas lides teatrais, aprendendo as nuances da interpretação e os diferentes tipos de gêneros que o teatro abrigava. Em especial, seria no teatro musicado, através da revista ou burleta, que ela atingiria a consagração como artista, tornando-se uma atriz-cantora de grande popularidade e estrela da empresa do Theatro São José.

3.2.1 "Rentrée": Manobras do Amor e o Theatro São José
O Theatro São José havia sido o antigo teatro Príncipe Imperial, depois chamado de Variedades e até de Moulin Rouge. Situava-se na Praça Tiradentes, nº 03, em frente ao Theatro São Pedro de Alcântara (atual Teatro João Caetano). No começo do século XX, era propriedade do empresário Paschoal Segreto. Em 1906, o Almanaque d´O Theatro informava que a iluminação do São José era feita por 101 bicos de gás incandescente, também podendo ser feita por eletricidade, com cinco lâmpadas em arco (duas na plateia, uma no saguão e duas na frente do teatro). O almanaque ainda destacava a boa localização do teatro, com bastante frequência de pessoas à noite, e próximo à companhias de bondes, o que facilitava a locomoção das pessoas. (Almanaque d´O Theatro, 1906, p.23-25).

O italiano Paschoal Segreto, desde 1883 no Brasil, era um empresário de grande visão para os negócios de entretenimento, sendo dono ou arrendando algumas das melhores casas de espetáculos da Capital Federal no começo do século XX49. Vendo que o Teatro de Revista era um ramo que rendia muitos lucros, o empresário procurou investir no gênero, patrocinando vários espetáculos, tornando-se uma figura popular, a ponto de ser chamado de o “papa do teatro brasileiro” pelo ator Procópio Ferreira, segundo Martins (2014, p.92), que completa:

[...] Uma das iniciativas que mais contribuiu para tamanha popularidade foi a fundação da Companhia de Operetas, Mágicas e Revistas do Cine-teatro São José, em 1911. A casa vivia cheia porque o empresário adotava a fórmula do teatro por sessões, com duas a três apresentações por dia do mesmo espetáculo a preços populares. Dessa forma, Paschoal conseguiu popularizar o teatro levando-o às camadas mais baixas e médias da população. 

Seria nesse espaço que Pepa Delgado brilharia por alguns anos, contribuindo com seu talento e carisma para o sucesso das peças do Theatro São José.

Seria na segunda metade de 1911 que Pepa Delgado era contratada pela empresa do Theatro São José, estreando como uma das protagonistas da opereta de costumes, Manobras do Amor, de Osório Duque Estrada (também autor da letra do Hino Nacional Brasileiro), com música de Chiquinha Gonzaga. Segundo O Paiz, “[...] manobrando com o amor estréa a graciosa divette Pepa Delgado, para quem foi escolhido um dos principais papeis” (O Paiz, 14 de outubro de 1911, p.4). Estreada em 18 de outubro de 1911, Manobras do Amor (FIG.17) era apresentada três vezes ao dia, em sessões às 19h, às 20h e 45m e às 22h e 30m.

Cabia à Pepa Delgado desempenhar o papel de Ernestina, sendo saudada pela imprensa no dia da estreia, que relembrava sucessos da atriz:

Pepa Delgado. Reapparece hoje, no theatro S. José, a intelligente actirz Pepa Delgado, uma das figuras de destaque do theatro nacional. Na platéa carioca o seu nome é bastante conhecido, desde o tempo em que foi levada à scena a revista Cá e Lá, onde ella se destacou do elenco pela graça com que cantava os tangos brazileiros. Pepa Delgado goza de geral sympathia por parte dos espectadores, que jamais lhe regateiam applausos. Sciente do valor da artista, ha mezes o emprezario Loureiro contratou-a para a companhia da rua dos Condes, em substituição a uma sua collega que se retirou do theatro, fazendo então Pepa Delgado uma excursão pelo Estado do Rio Grande do Sul, onde agradou immensamente. De regresso a esta capital, a graciosa artista faz hoje a sua reatrée no theatro S. José, creando o papel de Ernestina, na opereta Manobras do amor. (O Paiz, 18 de outubro de 1911, p.4, grifos do autor).


Afastada da cena carioca, devido às excursões que vinha fazendo desde 1909, Pepa Delgado reaparecia em definitivo nos palcos do Rio de Janeiro, agora contratada por uma grande empresa local. A imprensa a saudava destacando suas qualidades e inteligência, o que nos faz crer que ela vinha se dedicando com afinco à sua carreira e ao estudo de seus personagens.


Figura 17 – Cartaz de Manobras do Amor.

Fonte: O Paiz, 18 de outubro de 1911, p.16. 
Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional. 
Disponível em . Acesso em: 19 jul. 2017.

É interessante observarmos no cartaz a alusão de “grandiosos effeitos” de luz elétrica e a ênfase de que o espetáculo era da mais rigorosa moralidade50. As novas tecnologias estavam a serviço do teatro musicado que, nem por isso, deixava de ser um espetáculo para as famílias. Também nos chama atenção os nomes dos protagonistas, Alfredo Silva e Pepa Delgado, estarem bem destacados em letras garrafais. Periódicos como o Jornal do Brasil, elogiavam o fato de ser “uma peça inteirinha, genuinamente brasileira, lettra e musica”. E previa que “[...] não será de admirar que a esta succedam outras peças tambem genuinamente nacionaes” (Jornal do Brasil, 18 de outubro de 1911, p.11).

A crítica de O Paiz não foi favorável a Osório Duque Estrada como dramaturgo iniciante, afirmando que o primeiro ato havia decorrido sem maiores problemas, mas o segundo ator havia sido infeliz, com muitos monólogos e sem que as pessoas o entendessem bem. Já Chiquinha Gonzaga foi muito elogiada por sua originalidade, destacando-se a desgarrada apresentada no final da peça. Os protagonistas, Pepa Delgado e Alfredo Silva, destacaram-se “como bons artistas que são. A primeira fez a sua Rentrée no S. José, dando uma feição especial ao papel de Ernestina, cantando com graça e representando com donaire” (O Paiz, 20, de outubro de 1911, p.4, grifo do autor). Apesar do texto, a opereta foi um sucesso segundo o mesmo jornal, onde sobressaíram:

[...] o mimoso fado portuguez, maviosamente cantado pela distinca actriz Pepa Delgado, em duo com Laura Godinho, [...] bisado com enthusiasmo, e a imponente Desgarrada portugueza, cantada por todos os artistas e corpo de coros, [...] trizada com retumbantes e repetidos chamados á scena dos principais artistas e da maestrina Francisca Gonzaga [...]. Alfredo Silva, Pepa Delgado, Laura Godinho e Franklin de Almeida foram os reis da noite (O Paiz, 20, de outubro de 1911, p.4, grifos do autor).

Ao que parece, a parte musical contribuiu para o êxito da peça. O trabalho do elenco era intenso, fora as três apresentações diárias no domingo, dia 22 de outubro de 1911, a companhia apresentou cinco vezes a opereta e, segundo O Paiz, do dia 24 de outubro do mesmo ano, o movimento foi assombroso, “[...] foram cinco as sessões realizadas, e outras tantas as enchentes que o elegante theatro abiscoitou” (p.3).


Com mais de cinquenta apresentações, Manobras do Amor ainda seria remontada quase um ano depois (FIG. 18).


Figura 18 – Fotografia da atriz Pepa Delgado.

“A festejada artista brazileira Pepa Delgado, que tem conquistado os suffragios do publico, representando com exito nesta capital e em muitas das principaes cidades do interior. No Rio de Janeiro, tem sido sempre muito applaudida no Recreio Dramatico, no Lucinda, no Apollo e actualmente no S. José, onde realisará a sua festa artistica em 30 do corrente, com a engraçada opereta Manobras do Amor” (grifos do autor).

Fonte: Fon Fon, 14 de setembro de 1912, p.62. Hemeroteca Digital Brasileira da Biblioteca Nacional. Disponível em . Acesso em: 19 jul. 2017.


Através do site do Instituto Moreira Salles tivemos acesso ao arquivo da compositora Chiquinha Gonzaga e à partitura de Manobras do Amor, cuja letra do fado cantado por Ernestina (Pepa Delgado) e Rosália (Laura Godinho) encontra-se registrada em alguns versos e cifras: “Teus olhos, contas escuras. São duas Ave Marias. Do rosário de amarguras, qu´eu rezo todos os dias”.


Saindo, com sucesso, de uma peça saudada pela imprensa como totalmente brasileira, Pepa Delgado iria estrear meses depois uma revista ainda mais nacional, com temas carnavalescos, inaugurando um novo estilo dentro do Teatro de Revista: a Revista Carnavalesca”.



Jornal de Theatro & Sport, 1915
http://memoria.bn.br/




GRAVAÇÕES DE PEPA DELGADO



O ABACATE

Selo de O Abacate
Arquivo Marcelo Bonavides

Cançoneta de Chiquinha Gonzaga, Tito Martins e Gouveia.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.059, matriz R-379
Lançado em 1904
Da Revista “Cá e Lá”




UM SAMBA NA PENHA

Selo de Um Samba na Penha
Arquivo Marcelo Bonavides

Maxixe de Assis Pacheco, Álvaro Peres e Álvaro Colás.
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.063, matriz R-489
Lançado em 1904
Da Revista “O Avança”




A RECOMENDAÇÃO

Selo de A Recomendação
Arquivo Marcelo Bonavides

Cançoneta de Assis Pacheco.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.064
Lançado em 1904
Da Revista “O Avança”




O EIXO DA AVENIDA

Selo de O Eixo da Avenida
Arquivo Marcelo Bonavides

Valsa de Assis Pacheco.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.065
Lançado em 1904
Da Revista “O Avança”




CAFÉ IDEAL

Selo de Café Ideal
https://discografiabrasileira.com.br/

Maxixe de Chiquinha Gonzaga e letra de Tito Martins, 
com o refrão da melodia de “Oh, sole mio”.

Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.074
Lançado em 1904
De Revista “Cá e Lá”




MARIXE ARISTOCRÁTICO

Selo de Maxixe Aristocrático
https://discografiabrasileira.com.br/

Maxixe de José Nunes
Gravado por Pepa Delgado e Alfredo Silva
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.224, matriz RX-161
Lançado em 1905
Da Revista “Cá e Lá”



LARANJAS DA SABINA

Selo de Laranjas da Sabina
https://discografiabrasileira.com.br/
Lundu de Arthur Azevedo
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.350
Lançado em 1906
Da Revista “A República”




VEM CÁ, MULATA

Selo de Vem Cá, Mulata
https://discografiabrasileira.com.br/

Maxixe de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhado de piano
Disco Odeon Record 40.407
Lançado em 1906
Da Revista “O Maxixe”




O QUINDIM DA MODA

Selo de O Quindim da Moda
Arquivo Nirez

Cançoneta sobre a melodia de O Angú do Barão, de Ernesto de Souza.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon 40.487
Lançado em 1906.




A BANDOLEIRA

Selo de A Bandoleira
https://discografiabrasileira.com.br/

Cançoneta de Chiquinha Gonzaga

Sobre a melodia “Machuca”, também de Chiquinha Gonzaga
Gravada por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.531
Lançado em 1906




O VENDEIRO E A MULATA

Selo de O Vendeiro e a Mulata
Arquivo Marcelo Bonavides

Dueto
Gravado por Pepa Delgado e Mário
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.599
Lançado em 1906














Agradecimento à D. Tânia Delgado e ao Arquivo Nirez










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