Páginas

Translate

terça-feira, 28 de abril de 2009

Sapoty - canção brasileira de 1928

Canção brasileira com letra de Freire Junior e música de Afonso Martinez Grau.

Foi lançada pela atriz Dulce de Almeida na revista Você quer é carinho, de 1928.

Nesse mesmo ano, recebeu gravação do cantor Francisco Alves.

PS. Transcrevi a letra com parte da grafia original.

Gravação de Francisco Alves de 1928
Disco Odeon 10.210-B
Matriz 1738
Acompanhamento Jazz Band Pan American





O sapoty é a mulata brasileira
A trigueirinha faceira
que faz da gente o que quer
É uma fructa rechonchuda, saborosa
é também apetitosa
como a mestiça mulher

Tal qual a fructa
a mulatinha é desejada
Mesmo verde é procurada
pelos 'morcegos' gulosos
É molezinha
e delicada e tão macia
Quem afinal não a aprecia
com os seus requebros maldosos?

Qual a fructa melhor daqui?
Sapoty!
Qual a mulher que a todos mata?
A mulata!
Qual das duas se gosta mais?
São iguais!
Tem, as duas, a mesma cor
e sabor.





domingo, 5 de abril de 2009

Aracy Côrtes, Senhora Rainha

Aracy nasceu em 31 de Março de 1904, no Rio de Janeiro.
Seu nome de batismo era Zilda de Carvalho Espíndola, e ai de quem escrevesse errado sem o “E”...

Era filha de Argemira de Carvalho Espíndola e Carlos Espíndola. Afirmava ser “uma mestiça terrível – filha de brasileiro com espanhol e neta de paraguaio”.

Era a caçula dos irmãos Silvino e Dalva.
O contato de Zilda com a música se deu ainda em sua infância. Seu pai era amante da música e tocava choros em sua flauta.

A amizade com Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna) se iniciou na infância dos dois, quando eram vizinhos (a diferença de idade entre eles era de sete anos).
Nas reuniões musicais na casa do futuro compositor ela e a irmã já ensaiavam os primeiros passos de dança.

Um dia Zilda comunicou aos pais que havia sido convidada para atuar em um grupo amador, os “Filhos de Talma”.

Pouco depois estreava no Democrata Circo ( que também seria chamado de Circo Spinelli, usando o sobrenome de seu dono), onde o célebre Benjamin de Oliveira era a atração principal. Apesar do desmaio na apresentação inicial o publico gostou da garota e, em pouco tempo, já estava com a Companhia Arruda excursionando por São Paulo e Minas Gerais. Genésio Arruda, dono da companhia, era especialista no tipo “caipira”.

Quando seu amigo Pixinguinha formou o conjunto Os Oito Batutas, no qual seu irmão China (Otávio Vianna) também fazia parte, a menina Zilda foi cogitada para fazer umas apresentações com o grupo.

Mas era preciso fazer uma grande mudança.

China e Mário Magalhães, o crítico teatral do jornal “A Noite”, estavam na redação desse vespertino quando resolveram inseri-la ao conjunto. Porém, Mário achava que o nome Zilda não combinava e, após pensarem bastante concordaram que Aracy era algo bem brasileiro.

Mas, Aracy “de quê”? Uma dúvida mais complicada que a primeira, pois teriam de arranjar um sobrenome marcante, que se encaixasse com o nome.

Enquanto pensavam entrou, apressado, o repórter policial Côrtes. Ao ver o colega, Mário encontrou sua resposta. Assim, nascia Aracy Côrtes.

Ela não gostou da mudança e no início só usava somente metade no nome.

Daí para o grande meio de divulgação da música popular, de artistas e compositores, o Teatro de Revista (um poderoso veículo de comunicação que trazia a atenção da população ao que acontecia na política e nos costumes sociais), seria um pulo.

Sua estréia profissional nos palcos das revistas aconteceu em 31 de Dezembro de 1921.

A peça era “Nós, pelas costas!”, de J. Praxedes, com música de Pedro de Sá Pereira, com estréia no Theatro Recreio Dramático (ou Theatro Recreio), onde ela ainda iria brilhar inúmeras vezes.

O Recreio ficava na Praça Tiradentes, onde se encontravam os mais famosos teatros e a concentrava as peças de Revistas. Como já existia outra Zilda no elenco a solução foi usar definitivamente o pseudônimo. E a garota estreou como Aracy Côrtes mesmo.

Sua interpretação da personagem “Vinho do Porto”, na cena “No Domínio de Baco”, apresentava momentos de crua sensualidade pagã, segundo a imprensa. O crítico Mário Nunes a destacava como “figurinha de brasileira petulante”.


Obs: Artigo em 5 partes.

Aracy e as primeiras gravações- Parte 2

O Teatro de Revista tinha em Ottília Amorim um dos grandes nomes da época e, pouco depois, Margarida Max e Lia Binatti. Junto a elas Aracy foi fazendo seu nome e até ser considerada uma de suas Rainhas.

Em breve, seria a figura principal dos palcos da Praça Tiradentes, lançando vários clássicos imortais de nossa MPB em primeira mão e lançando novos compositores como: Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa, Assis Valente...

Segundo a revista Noite Illustrada, de 19 de Outubro de 1938, Aracy era “a decisão da vida de um compositor”.

E, para um iniciante ter uma de suas composições inseridas em algum teatro da Praça Tiradentes já era um grande passo... ter essa música interpretada por Aracy Côrtes era a consagração!

Gravou suas primeiras músicas em 1925, ainda na lendária Casa Edison.
Até 1926 podemos ouvir, na grande maioria dos discos, um locutor anunciando o título da música, o intérprete e algumas informações adicionais.

Em seu primeiro registro sonoro, a jovem cantora recebeu o título de “Graciosa Estrela Brasileira”. Nesse ano, gravou A Casinha (também conhecida como A Casinha da Colina, de Pedro de Sá Pereira e Luís Peixoto), Petropolitana (autor ignorado) e Serenata de Toselli (de E. Toselli).

Volta a gravar no final de 1928. A gravadora era a Parlophon.

Em seu primeiro disco elétrico já trazia um clássico: o samba de Sinhô (José Barbosa da Silva) Jura...! , lançada pela própria Aracy na revista Microlândia, estreada no Teatro Fênix em 28 de Setembro de 1928.

O pesquisador Abel Cardoso Junior informava que Aracy precisou repetir a música sete vezes no primeiro dia da apresentação e, segundo a própria cantora, “Isso deixou Sinhô tão emocionado que ele subiu no palco chorando”.

O disco seguinte seria igualmente histórico e marcaria Aracy pelo resto de sua vida por causa da música do lado A.

Ela gravava pela primeira vez Yayá .

Essa composição já havia sido gravada, com títulos e versos diferentes, por Vicente Celestino (Linda Flôr, com versos de Cândido Costa) e Francisco Alves (Meiga Flôr, com letra de Freire Júnior), sem o sucesso desejado. Nem a competente atriz Dulce de Almeida conseguiu que emplacasse quando lançou, antes de todos, na peça A Verdade ao Meio-Dia, em 1928.

Com novos versos, de Luis Peixoto e Marques Porto, a melodia do maestro Henrique Vogeler entraria para a história não com o nome que Aracy lançou na revista Miss Brasil (Theatro Recreio em 20 de Dezembro de 1928), mas rebatizada pelo público como Ai Yoyô.

Aracy e seu estilo inconfundível - Parte 3

Soprano, Aracy foi quem adaptou o canto lírico para cantar a nossa música popular.

Ela sabia valorizar a melodia e em cada registro seu deixou sua marca, seus “erres”, sua dicção e os agudos maravilhosos.

E sua improvisação, apenas com sons? Perfeita!

Basta ouvirmos Reminiscências, de Jota Soares e Carlos Medina.

Aí, percebemos porque ela era considerada soberana.

Uma curiosidade: Aracy gravou essa música duas vezes.

Talvez em nossa discografia não apareça esse detalhe.

Mas, se ouvirmos atentamente alguns exemplares da música veremos, na parte do improviso, que se trata de versões diferentes.
Ela troca de lugar com a orquestra e, com improvisação através de sua voz, interpreta a parte dos instrumentos que a acompanham e estes solam a parte que seria cantada por ela.

Não foi à toa que Abel Cardoso Junior ao escrever sobre essa música, afirmou: Aracy dá uma verdadeira aula de voz e interpretação!

Em suas gravações ela assumia as personagens que interpretava nos palcos ou que faziam sucessos.

Podia ser a mulher bem resolvida de Sim, mas desencosta (Cândido das Neves); como poderia ser triste e bela com A Minha Dor, de Oscar Cardona (que também era ator).

O tema “mulher de malandro” nos deu Tu qué tomá meu home (Ary Barroso e Olegário Mariano) e Você é o homem do meu peito (J. Cabral e M. Rodrigues).
A Bahia foi cantada através de Meu Sinhô do Bonfim (Pedro de Sá Pereira, Luís Peixoto e Marques Porto), Zomba (do cantor Francisco Alves) ou a já citada Baianinha.

Os Quindins de Yayá (de Pedro de Sá Pereira e Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt – não confundir com a homônima de Ary Barroso) nos davam idéia da malícia de sua atuação.

E Um Sorriso (de Benedito Lacerda) ainda nos deixa emocionados.

Gravou também na Odeon e na Colúmbia.

Aproximadamente foram 71 músicas em discos 78 rpm.

É uma pena que não tenha gravado mais.

Basta citarmos alguns títulos de músicas que devem a ela seu sucesso para desejarmos mais gravações suas: Aquearela do Brasil, No Morro, Eh, Eh (depois rebatizada de Boneca de Pixe), Na Grota Funda – Esse mulato vai ser meu (que viraria No Rancho Fundo), Guacyra, Harmonia das Flores, Ai Yoyô, Jura, Na Pavuna, Tem Francesa no Morro, Tico Tico no Fubá, Yes, Nós temos Banana...

Excursionou com sucesso por Paris, Portugal e Espanha.

Criou sua própria companhia teatral: Companhia Aracy Côrtes/Pinto Filho.
Pinto Filho foi um de nossos grandes atores cômicos.

Teve destaque no rádio e foi eleita a Rainha da Atrizes de 1939.

Após décadas de êxitos ela se afastou dos palcos.

Retornou com grande sucesso no show Rosa de Ouro (de 1965), em que dividia o palco com os estreantes Clementina de Jesus Paulinho da Viola. Sua entrada era anunciada com a música Senhora Rainha, de Hermínio Bello de Cravalho.
Por conta desse espetáculo fez mais algumas gravações e lançou mais composições, também interpretando seus sucessos.
Em 1984, aos 80 anos, participou em um show na Sala Funarte ao lado da cantora Marília Barbosa que, segundo a própria Aracy, era a única que poderia ser sua sucessora.

Em 8 de Janeiro de 1985 ela falece no Rio de Janeiro. Seu corpo é velado no Teatro João Caetano. A imprensa dedica homenagens à artista; afirmando que, com ela, ia embora toda uma era do nosso teatro.

E foi verdade...


Aracy, análise de uma estrela - Parte 4

Ela, aos 28 anos já era considerada uma grande profissional. Um nome bastante respeitado.

Se revisarmos sua carreira, veremos que ela pegou uma fase de transição em nossa cultura.

Iniciando profissionalmente no início da década de 1920, Aracy começou a atuar no finalzinho da Belle Époque brasileira.


Interpretou nos palcos compositores veteranos que faziam parte da geração de 1900, como Paulino Sacramento, e foi uma das últimas cantoras a gravar ainda no processo mecânico, na lendária Casa Edison.

Conseguiu tudo isso até os 21 anos.

Em seguida a esses acontecimentos, seguiu sua carreira em meio às transições dos loucos anos 20, passou a gravar no processo elétrico e lançou sucessos de compositores da (sua) atualidade, como Sinhô e novos talentos como Ary Barroso.

Adaptou-se com perfeição na interpretação dos novos estilos de se cantar samba, da marcha e também às mudanças de como se fazia o Teatro de Revista.
Era sempre atual e inovadora; como quando subiu o morro para contratar sambistas que nunca haviam visto um palco, mas, que eram perfeitos na interpretação de sua composições.

Falar de Aracy Côrtes é, e sempre será, um imenso prazer para mim.Pronunciar seu nome já me dá um prazer indescritível, nome sonoro e imponente, que me evoca sua voz e interpretação impagáveis.Eu escrevi uma breve citação de algumas fases de sua vida. Sua história merece, como já aconteceu (e provavelmente acontecerá novamente) um livro inteiro ou um blog só para ela.Idéia que vou por em prática um dia.

Se buscarmos conhecer quem foram nossos artistas do passado veremos como foi rica e grandiosa nossa cultura.
Como Aracy Côrtes outras mulheres e homens deixaram um belo legado para a posteridade.

Garanto-lhes uma coisa: é um universo apaixonante onde todos vão ficar fascinados ao conhece-lo!

Quem se habilita?

sábado, 4 de abril de 2009

Aracy, ouçam sua voz! - Final

Ouça Aracy Côrtes







A Casinha - Canção brasileira de Pedro de Sá Pereira e Luís Peixoto.
Gravada em 1925. Disco Odeon Record 122.884. Aracy é acompanhada pela famosa Jazz Band Sul Americana de Romeu Silva.
Lançada na revista Secos e Molhados em 1924.




Jura...! - Samba de José Barbosa da Silva, o Sinhô.
Gravado em 1928, disco Parlophon 12.868-A, Matriz nº 2071, lançado em Novembro de 1928.
Aracy é acompanhada por Simão Nacional Orchestra.
Foi lançado na revista Microlândia em 1928.




Yayá - Canção brasileira de Henrique Vogeler, Luís Peixoto e Marques Porto.
Disco Parlophon 12.926-A, Matriz nº 2366, lançado em Março de 1929.
Aracy é acompanhada pela Orchestra Parlophon.
Foi lançado na revista Miss Brasil, em 1928.
Ps. Trata-se de um samba-canção, o nosso primeiro. Porém, eu copiei as informações como estão no selo do disco.







Quindins de Yayá - Samba de Pedro de Sá Pereira, Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt.
Disco Odeon 10.457-A, Matriz nº 2815, lançado em Agosto de 1929.
Aracy é acompanhada pela Orchestra Pan American.
Lançada na revista Compra um Bonde, em 1929.



O amor vem quando a gente não espera (Samba da Penha)
- Samba
De Ary Barroso, Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt.
Disco Odeon 10.469-A, Matriz nº 2.866, lnaçado em Outubro de 1929.
Lançado na revista Comigo é na Madeira, em 1929.









Obs: Nessa série de pequenos artigos sobre Aracy Côrtes usei a grafia e acentuação originais de títulos de músicas e nome de pessoas.



Agradecemos ao ARQUIVO NIREZ (Fortaleza-Ce).


Fontes:
Revista Phono-Arte, 1929/1930.
Revista Noite Illustrada, 1930.
Araci Cortes - Linda Flor, da autoria de Roberto Ruiz, 1984.
Viva o Rebolado - Vida e morte do Teatro de Revista brasileiro, Salvyano Cavalcanti de Paiva, 1991.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...