domingo, 28 de julho de 2013

COPO AMERICANO - 100% Brasileiro

http://www.anavidro.com.br/


Sempre que pensamos na tradicional imagem de um bar com cachaça, cerveja gelada ou um café quentinho (puro ou com leite), visualizamos a imagem do inconfundível Copo Americano.

Já sendo parte do cenário de bares, padarias e até nossas casas, esse utensílio faz parte da nossa história desde 1947.

http://mnda.com.br/



Apesar do nome, ele é totalmente brasileiro.

Ainda nos anos 40, o empresário Nadir Figueiredo (São João Del-Rei, Minas Gerais, 1891 – São Paulo, SP, 10 de abril de 1983) decidiu produzir copos de vidros em nosso País. Ele se inspirou em copos que, na época, era unicamente produzidos nos Estados Unidos. Daí o nome do copo. Porém, o modelo que Nadir desenhou e desenvolveu foi completamente voltado para os costumes do Brasil.

A fabricação começou em 1947, de forma manual, nos mais tradicionais padrões de vidro artesanal, com o operador colhendo o vidro incandescente no forno, usando uma cana e o depositando na forma que lhe dava o visual final. Nesse processo, eram produzidos dois copos por minuto. Na época, isso era um avanço.

O produto caiu no gosto do público e, com o crescente número de vendas, foi preciso inovar na produção. Em 1948, com máquinas, a produção chegava a trinta copos por minuto. Um grande progresso.

Com o aumento de qualidade e quantidade, o passo seguinte era consolidar o Copo Americano como predileto entre as pessoas. Para que isso acontecesse, e elevá-lo a condição de preferido por bares e restaurantes, a empresa utilizava o fator de plena oferta e ótima relação de custo x benefício.


blogs.estadao.com.br



www.nadir.com.br



Por volta de 1965, a produção chegava a sessenta copos por minutos e, em 1972, a cem copos. Em 1983, dobrou, com duzentos copos por minutos. Em 1996, 380 copos.
Atualmente, a empresa passou a fabricar de 420 para 480 copos por minutos.

Ícone do design brasileiro (reconhecido entre os melhores do Brasil), o Copo Americano já faz parte de nossa história.

Em 2009, ele foi exposto no MOMA (Museu de Arte Moderna), de Nova York, como símbolo do design brasileiro, cujo mérito se deve ao empresário Nadir de Figueiredo.


Curiosidades

  • O Copo Americano tem várias utilidades, como medidas em receitas de bolos e medidas de sabão em pó.


  • Em Belo horizonte, é conhecido como copo lagoinha. Acredita-se que esse apelido se deve pelo copo ser muito utilizado na zona boêmia de Belo Horizonte, conhecida como Bairro Lagoinha.


  • No mercado atacadista ele é conhecido apenas como copo ou 2010 (seu código de referência interna, do fabricante Nadir Figueiredo S/A).



  • A empresa Nadir Figueiredo Indústria e Comércio S/A começou em 1912 como uma oficina de máquinas de escrever e equipamentos elétricos. Ao longo de sua história passou a produzir objetos de utilidades domésticas, principalmente produzidas em vidro.






quinta-feira, 25 de julho de 2013

O dia 25 deJulho




O dia 25 de julho marca alguns eventos:

Aniversário da atriz Beatriz Segall (que começou sua carreira como Beatriz Toledo), 87 anos.

Aniversário do cantor, compositor, escritor e pintor Nelson Sargento, 89 anos.

Falecimento do cantor Carlos Galhardo, o Rei da Valsa, em 1985.

Nascimento do compositor Bide (Alcebíades Maia Barcellos), em 1902.

Falecimento do cantor e violonista Cadete (ou K.D.T., Manuel Evêncio da Costa Moreira), um dos pioneiros de nossa MPB, em 1960.

Passeata ocorrida no ano de 1889, em defesa da vendedora de laranja e ex-escrava Sabina que, injustiçada, teve seu tabuleiro apreendido. Em solidariedade, centenas de estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro fizeram uma animada passeata contra a arbitrariedade do subdelegado local. Resultado: ela teve seu tabuleiro devolvido, o subdelegado foi demitido e Sabia virou musa de músicas, peças e personagens. Foi imortalizada por Arthur Azevedo no lundu As Laranjas da Sabina.

Ah, também marca o aniversário desse pesquisador/blogueiro que vos escreve, nascido em 1975. :) :)




quarta-feira, 24 de julho de 2013

FRANCISCO ALVES E AS GRAVAÇÕES "PERDIDAS" DE 1924

O cantor Francisco Alves iniciou sua carreira artística na segunda metade dos anos 10. Ingressando no teatro de revista onde sua irmã, Nair Alves (ou Lina), já trabalhava, ele acabou por chamar a atenção da estrela Zazá Soares (também conhecida por A Bela Zazá).

Já li em algum lugar (estou procurando onde - a fonte) que Zazá gostava de ouvi-lo cantar modinhas ao violão. Durante os intervalos dos ensaios ela sempre pedia para chamar o Chico para ouvir sua bela voz. Mas, como haviam dois Francisco (e, assim, Chico) na Companhia, muitas vezes havia engano. Daí, ela passou a pedir que chamassem o Chico da viola. Sem mais enganos, dessa forma, nascia a primeira grande alcunha do cantor, Chico Viola.

Assim, ele continuou sua carreira como ator e em 1919 gravou seu primeiro disco na gravadora A Popular, de João Batista Gonzaga, esposo de Chiquinha Gonzaga.
Na década de 1920, ele "estourou" como cantor em 1927, quando seus discos vendiam cada vez mais e sua voz se tornava conhecida nacionalmente, agradando a todos, seja na fase mecânica ou na elétrica.



Da esquerda para a direita: a irmã, Nair Alves, interpretando a Melindrosa,
Francisco Alves (Almofadinha) e Marieta Field (Coronel).
Sonho de Ópio, 1923.


Porém, ainda na primeira metade dos anos 20, quando aliava ao trabalho de ator a função de chofer de praça, Francisco Alves gravou dois discos para a Casa Edison.

Um disco trazia as músicas: Chammas do Carnaval, marcha carnavalesca que ele gravou como Coro do Theatro São José (seus colegas de palco. Creio que a atriz Júlia Martins está no coro), e Miudo, samba carnavalesco gravado com o Grupo do Sebastião e Coro (parecido com o do São José), as músicas são da autoria de Sebastião Santos Neves.
Foi gravado no dia 24 de janeiro de 1924.

Chammas do Carnaval era dedicada ao cronista carnavalesco do Jornal do Brasil, Meúdo.

Também era oferecido ao Grupo das Sabinas, bloco carnavalesco.

Ela ainda foi adotada como marcha oficial do rancho União das Flores, que ficava na Rua General Bruce, em São Cristóvão, Rio de janeiro. A notícia foi dada ao Jornal do Brasil pelo folião Elmano Neves, que era Secretário da União das Flores. Ele avisava que os ensaios aconteciam às quartas-feiras (das 17h às 22h) e aos domingos(das 13h às 16h). O jornal garantia-lhe que o homenageado, Meúdo, iria surgir em algum ensaio para ouvir o corpo coral ensaiar Chammas do Carnaval.

Também foi vencedora no concurso de sambas e marchas carnavalescas promovido no Sábado de Aleluia de 1924 pela Casa Edison. O autor ganhou um conto de réis.

O autor, Sebastião Santos Neves, era famoso nessa década por seus sambas. Fez parte, com Josué de Barros e outros, do conjunto Cotubas de Macaé. Em 1928, o jornal A Esquerda o citava com Rei do Samba.

Miudo tinha uma letra maior, mas, só foram gravadas três estrofes e o refrão. Infelizmente, o jornal tinha um rasgo na última estrofe.
A música faz alusão à companhia francesa Ba-Ta-Clan (Bataclan, na grafia atual), cuja estrela era Mistinguett, que fez muito sucesso no Rio de Janeiro no começo dos anos 20, influenciando costumes e recebendo homenagens, como músicas e influenciando novas companhias teatrais.

Ao que parece, era uma crítica aos novos compositores de samba.
Freire Júnior estaria incluído neles? Afinal nesse mesmo ano de 1924, ele havia lançado o samba carnavalesco De Bam Bam Bam, um dos sucesso desse carnaval. De certa forma, a letra menciona a composição de Freire Júnior.
Dá a entender que misturando os novos modismos com a inexperiência de compositores novatos, o samba terminava por se descaracterizar, como se fosse algo estrangeiro. Afinal, segundo a letra, o samba é complicado.


O outro disco trazia: Não Me Passo Pra Você, marcha carnavalesca, e Mademoiselle Cinema (Mlle. Cinema), marcha carnavalesca, ambas de Freire Júnior. Em 1925, estrearia o filme Mlle. Cinema, estrelado por Carmen Santos.


Felizmente, chegou até nós um dos dois discos. Miudo/Chammas do Carnaval foi encontrado no Sul e doado ao pesquisador Abel Cardoso Júnior no inicio da década de 1990. Abel fez uma cópia ao seu amigo, o também pesquisador Nirez, e emprestou a Roberto Gambardella (de SP) para que fizesse cópia. O sr. Roberto também fotografou o selo de Miudo. Depois, Abel doou o disco ao pesquisador Leon Barg, de Curitiba.

Aqui, trago a cópia que Abel Cardoso Júnior fez a Nirez. A foto do selo de Miudo foi especialmente cedida pelo colecionador Djalma Candido, que fotografou o quadro do também pesquisador Roberto Gambardella.





Em minhas pesquisas, consegui a letra das duas músicas.
Aqui estão. Qualquer novidade que eu for encontrando irei acrescentando aqui ou em novas postagens.


Chammas do Carnaval
Marcha Carnavalesca de Sebastião Santos Neves
Gravado por Francisco Alves e o Coro do Theatro São José
Disco Odeon Record 122.648
Gravado em 24 de janeiro de 1924 e lançado nesse mesmo ano.

Miudo
Samba Carnavalesco de Sebastião Santos Neves
Gravado por Francisco Alves com o Grupo do Sebastião e Coro
Disco Odeon Record 122.649
Gravado em 24 de janeiro de 1924 e lançado nesse mesmo ano.



Jornal do Brasil
Sábado, 24 de janeiro de 1925.
http://memoria.bn.br



CHAMMAS DO CARNAVAL

 


1ª parte

O Carnaval que nos dá o alento
Nos desvanece tantos tormentos
Distrae as maguas
Distrae as dores
E os dissabores do pensamento.

2ª parte
Salve estes tres dias
Que nos dão prazer
E nos esvae as maguas
Que não cessam de soffrer
O Carnaval tem chammas
Chammas, sim de sensação
É quem dá conforto a este
Ou aquelle coração.

TRIO
A Colombina
Sempre altiva e faceira que flôr!
A gigolette
Esta então nos domina o amor
Vae-se o Carnaval
Voltam as tristezas
Mas que dor!

 
Jornal Correio da Manhã
Sábado, 19 de janeiro de 1924.
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MIUDO

 

Seus sambistas da “estrella”,
A verdade é um fato? É!
O samba é complicado
Comprehendam como quisé...

CORO
Era tam, tam, tam,
Ficou bam, bam, bam.
Dou tres pulos para o alto, oi!
Virou BA-ta-clan!...

Quatro compassos não é musica,
Ora bolas que pipoca.
Isso acaba fattigando
O pessoal carioca.

Era tam, tam, tam, etc.

Uns escrevem minha santa,
E outros minha querida!
Quatro compassos não é musica,
Vão procurar outra vida!...

Era tam, tam, tam, etc.

Esses rapazes de agora,
Que não conhecem muamba,
Nunca andaram na travanca
Como podem fazer samba!...

Era tam, tam, tam, etc.


Meus sambistas da corôa,
................uelles que tem
.......................................
.......................................


Jornal do Brasil
Sexta-feira, 25 de janeiro de 1924.
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Agradecimento ao Arquivo Nirez e a Djalma Candido










segunda-feira, 22 de julho de 2013

A GUEISHA NO THEATRO JOSÉ DE ALENCAR, 1915

A opereta A Gueisha (em grafia da época), de Sidney Jones, fez muito sucesso no início do século XX, encenada por grandes artistas no Rio de Janeiro. Até filme virou, em 1909. Um filme opereta, na era do cinema mudo; aonde os artistas iam para trás da tela dublar os números musicais.

Aqui em Fortaleza (CE), o sucesso de A Gueisha não foi menor.
Vasculhando o Arquivo Nirez, tive uma grata surpresa.

Em 1915, a Companhia Cruz Branca, formada por meninas e senhoritas da elite fortalezense, levou a opereta aos palcos do Theatro José de Alencar (então com apenas cinco anos de inauguração), em quatro apresentações.  O êxito da montagem foi registrado pelas páginas do periódico Fon Fon.


Srta. Virgínia Salgado no papel de Gueisha (Mimosa).


Menina Waudelis Jardim,
no papel do dono da casa de chá




Cena do 1º ato.
Palco do Theatro José de Alencar.


Cena do 1º ato.
Palco do Theatro José de Alencar.


Srta. Sylvia (Marques) e o pagem


As Gueixas, da esquerda para a direita: Senhoritas Barrozo, Gomes Moura, Moraes e Luila Motta.


FON-FON, 1915.




Agradecimento ao Arquivo Nirez








domingo, 21 de julho de 2013

PEPA DELGADO, os 126 anos da primeira grande cantora brasileira.

Pepa Delgado
Arquivo Marcelo Bonavides
Fotografia sem data.



Há 126 anos, em 21 de julho de 1887, nascia Maria Pepa Delgado, na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Nacionalmente, e para a posteridade, ela ficaria conhecida por PEPA DELGADO.

Venho há vários anos tentando publicar algo sobre ela (livro ou álbum, ou até livro de bolso) onde pudesse divulgar o que já encontrei. Ainda falta pesquisar bastante coisa, por isso, a pesquisa continua.
Infelizmente, pela falta de patrocínio, uma publicação com o que já foi encontrado ainda não foi produzida.
O único lugar em que eu vou soltando alguma coisa é por aqui, em entrevistas, alguns artigos em jornais.
Quem quiser conhecer um pouco mais em detalhes, a vida de Pepa Delgado e outras atrizes de seu tempo, eu indico a biblioteca da Estácio FIC, aqui em Fortaleza, campus Via Corpus. O livro reportagem que eu escrevi, por ocasião de minha graduação em jornalismo (e por isso, só possui essa cópia, fora a minha), encontra-se nesse local. O título é Nossas Atrizes Cantoras: de 1859 a 1926.
Quem sabe isso muda.


Um pouco sobre Pepa Delgado






Sua mãe era natural de Sorocaba (SP) e chamava-se Ana Alves.
Seu pai, Lourenço Delgado, nasceu na Espanha e era toureiro por profissão. 
Ao vir para o Brasil, adotou a profissão de fotógrafo.

Foi no Rio de Janeiro que ela passou a morar, no comecinho da década de 1900, onde abraçou a profissão de atriz. No início, fazia pequenos papéis em comédias e musicais. Mas, aos poucos, foi se destacando e mostrando talento para papéis cômicos, brejeiros e soltando a voz.
Seu carisma era forte e seu prestígio aumentava.

Em 1904, ano em que completou 17 anos, foi convidada a gravar discos para a Casa Edison, passando a ser uma das primeiras mulheres a gravar no Brasil sendo que, destas pioneiras, Pepa é a mais conhecida e a que mais registros chegou até nós. Interessante é o fato de, em algumas gravações, ela mesmo se anunciar, já que aparentemente nenhuma outra cantora fez isso, pois, haviam locutores para desempenhar essa tarefa.

A, então, adolescente já dividia as chapas gravando músicas célebres ao lado de gente famosa, como Maxixe Aristocrático, música da peça de sucesso Cá e Lá (de 1904), gravada ao lado do astro Alfredo Silva.

Seu talento para a comédia podia vir acompanhado de uma boa dose de pimenta (malícia), quando cantava e interpretava cançonetas (e até valsas!) de duplos sentidos. Os artistas de seu tempo não tinham somente músicas picantes em seus repertórios (elas, talvez, causem mais sensação hoje, que esperamos ver em épocas passadas um cenário cem porcento inocente).
Variados estilos, como canções, fados, valsas, maxixes, lundus, romanzas, habaneras, eram interpretados por ela nos palcos da revistas, burletas, operetas, comédias e dramas em que participava.

Atriz pioneira, ela também seria uma de nossas primeiras estrelas a atuar no cinema.
O primeiro filme foi o curta Sô Lotéro e Nhá Ofrásia com seus productos à Exposição, de 1908. Oportunamente, essa comédia dirigida por Antônio Leal, abordava a grande Exposição de 1908 ocorrida no Rio de Janeiro, ou melhor, Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil. Pelo título e gênero do filme podemos imaginar a abordagem dos tipos estereotipados do caipira, que muito sucesso fazia nos teatros de então, ganhando o cinema. Pelos jornais da época, vemos que, além de comédia, era uma crítica aos acontecimentos sendo, dessa forma, uma revista filmada.

Mostrando a versatilidade característica dos artistas de seu tempo, Pepa Delgado também se sobressaia em produções religiosas, como o filme Os Milagres de Nossa Senhora Aparecida, de 1916, dirigido por Arturo Carrari.

Poucos anos depois, ele se casou com Almerindo Álvaro de Moraes, passando a se chamar Maria Pepa Delgado de Moraes. É interessante essa união. Em uma época onde atrizes eram sempre mal vistas e tinham (injustamente) uma má reputação, vemos a união de uma atriz com um militar bem sucedido e com uma promissora carreira. E mais: vindo de uma família de sólida tradição militar. 
Ela já era uma atriz consagrada, famosa, independente. Mesmo depois de casada, ainda manteve sua Companhia Pepa Delgado. Só se aposentou quando engravidou de seu único filho, Heitor. Mas, nunca deixou de apoiar e ajudar seus ex-colegas e artistas novatos.

Muitos já conhecem seus feitos que não se encontram em papéis para registro póstumo, mas, que eram repetidos e reconhecidos por seus contemporâneos e passados adiante. Ela solicitou a Fred Figner, dono da Casa Edison, que doasse o terreno que tinha em Jacarepaguá para a construção da Casa dos Artistas, depois, Retiro dos Artistas. Na época, vários artistas se empenharam nisso. Ela, antiga estrela da Casa Edison, pode muito bem ter contribuído com sua influência.

Outra história repetida é a de que ela ajudou e incentivou Vicente Celestino no começo da carreira do tenor. Vicente, ainda jovem e iniciante, participou de peças ao lado de Pepa. Em A Sertaneja, de Viriato Correia e música de Chiquinha Gonzaga, onde ela era a protagonista, ele teve destaque no papel de Jandaya.
Já casada, ela e o esposo acolheriam o jovem Colé Santana. Segundo Heitor, filho de Pepa, Colé chegou a morar no porão da casa de seus pais.

A curiosa história da menina Abigail. 
Nascida em uma aldeia indígena no Paraná, foi entregue por sua mãe aos cuidados de Pepa, que estava em excursão nesse Estado. A pequena foi adotada por um amigo da cantora, o maestro Felippo Alessio, que a levou para São Paulo. Mais tarde, a menina se tornaria a célebre soprano Abigail Alessio Parecis, que anos depois adotaria o menino e futuro ator Grande Othelo.
Verdade ou versão romantizada de suas origens, o fato é que Abigail era filha adotiva de Felippo e afilhada de batismo de Pepa Delgado. Quando recebi uma parte do acervo de Pepa, constatei duas fotografias de Abigail. Uma, datando de 1915, e outra de 1929, já cantora consagrada. Em ambas há a afirmação de Abigail ser afilhada de batismo da cantora.


Conversas com Heitor Delgado
Durante a década de 1990, tive o prazer de conversar por telefone com o sr. Heitor Delgado de Moraes. Durante várias vezes pudemos falar e relembrar sua querida mãe. Infelizmente, não pude conhecê-lo pessoalmente quando fui ao Rio de Janeiro visitar a família Delgado. Ele havia falecido. Sua filha estendeu a mim toda atenção que seu pai me dedicou e ainda me presenteou com vários objetos, discos e fotografias que haviam pertencido à atriz.
Mas, isso é assunto para um novo post.

Aguardem!




Fotos e Jornais


Sorte de pesquisador.
Entre as fotos que recebi de D. Tânia Delgado, neta de Pepa, estava essa.
Pepa Delgado sentada ao centro, rodeada de colegas de uma provável companhia teatral.
Não havia data. Mas, pelas roupas, eu deduzi ser de meados da década de 10.

Um dia, pesquisando em jornais e revistas antigos, encontrei a mesma foto publicada em um periódico, Jornal das Moças.
Lá, a legenda afirmava tratar-se da Companhia Alfredo Silva, do Theatro São José. A data da publicação batia com o que eu pensei, 1915. Mas a foto pertencia ao acervo da Biblioteca Nacional, disponibilizado na Internet.
Por minha sorte, encontrei a mesma revista à venda em um sebo!
E, aqui, reproduzo a foto original, emoldurada, e a da revista que eu comprei.

Embora sem mencionar ninguém, podemos identificar alguns artistas, como o próprio Alfredo Silva (em pé, atrás de Pepa), para quem olha a foto, à esquerda de Pepa, está sentada a atriz portuguesa Laura Godinho. Ainda há o cenógrafo Abílio, as atrizes Júlia Martins e Stella Pradel. Detalhe para o simpático cachorrinho. 



Companhia Alfredo Silva.
Arquivo Marcelo Bonavides.


Companhia Alfredo Silva.
Jornal das Moças, 1915.
Arquivo Marcelo Bonavides.


Nos tempos em que integrou a Companhia Alfredo Silva, 1915.
Arquivo Marcelo Bonavides.




Cá e Lá.
Tagarela, 09 de junho de 1904.
http://memoria.bn.br


Seção de teatro do periódico Tagarela.
Festa de benefício de Pepa Delgado.
Tagarela, 18 de agosto de 1904.
http://memoria.bn.br


estréia de Pepa Delgado no cinema, no curta de Antônio Leal: 
Sô Lotéro e Nhá Ofrásia com seus productos à Exposição, 1908.
Correio da Manhã - terça-feira, 25 de agost
o de 1908.
http://memoria.bn.br


As Duas Orphãs.
Correio da Manhã, quinta-feira, 27 de agosto de 1903.
http://memoria.bn.br



As Músicas

Trago cinco gravações feitas por Pepa Delgado datando de 1904 e 1910.
Ao final dos arquivos, vocês podem conferir as letras.
A primeira, O Eixo da Avenida, fazia parte da revista O Avança! e possui um delicioso duplo sentido.
O disco pertencia à própria Pepa e me foi doado por sua neta, Tânia.
Volto a chamar atenção ao fato da própria atriz se anunciar em duas das músicas aqui selecionadas, uma vez que haviam locutores que faziam essa tarefa.


O Eixo da Avenida
(A Menina do Eixo)
Valsa da revista O Avança!
Da autoria do maestro Assis Pacheco
Letra com duplo sentido
Disco Odeon Record 10.065
Lançado em 1904





Selo do disco Odeon Record 10.065,
O Eixo da Avenida.
Arquivo Marcelo Bonavides.




Os demais discos, que fazem parte do Arquivo Nirez, foram gravados por Pepa Delgado na Columbia Record em 1910.
Em 1912, eles foram relançados.
As gravações seguintes são as originais de 1910, mas, em discos relançados em 1912.
Sua numeração começava com B e a matriz trazia o número do disco original.



A Cozinheira
Cançoneta
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record B-31, matriz 11.626
Lançado em 1912




O Vatapá
Tango de Paulino Sacramento
Gravado em dueto com Mário Pinheiro
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record B-31, matriz 11.644




A Viuvinha
Cançoneta
Acompanhamento de Piano
Disco Columbia Record B-39, matriz 11.716
Lançado em 1912




A Lavadeira
Cançoneta da revista Só Pra Homens
Acompanhamento de Piano
Disco Columbia Record B-39, matriz 11.735
Lançado em 1912





As Letras

Com exceção de O Eixo da Avenida (cuja letra encontrei no libreto de Avança!, no acervo do IMS, em São Paulo), as letras foram tiradas de ouvido por mim, em longas e repetidas audições. Podem haver erros.
Mas, podemos observar raros registros de trechos do teatro de revista do começo do século XX, a desenvoltura da atriz e uma crítica à sociedade e costumes em cada gravação.


O Eixo da Avenida
(A Menina do Eixo)

Já não tenho prazer nesta vida
Infeliz, como eu sou, jamais vi!...
Pois por causa da tal avenida
O meu noivo querido perdi
Era um moço de louro cabelo
Olhos grandes, chamava-se Aleixo
Mas, fugiu! Nunca mais pude vê-lo...
Desde que houve...a abertura do eixo.

A princípio, era bom, amoroso
Sempre amável e sempre a sorrir...
Tão gentil, tão...tão...tão carinhoso!
E tão mau afinal me sair!
Enganou-me o tratante, o malvado!
Desse engano é que aflita me queixo
Percebi que me havia enganado
Só depois... da abertura do eixo!

Conheci-o num baile valsando...
Vê-lo e amá-lo foi quanto bastou!
Ai, Jesus! Chorarei até quando?...
Que infeliz! Que infeliz, ai que eu sou!
Enganou-me o vilão, foi esperto!...
E a culpada foi eu! É bem feito!
Mas agora que está o eixo aberto
Vou ter noivos a torto e a direito.


A Cozinheira

Eu sou cozinheira
De tais feiticeira
Segredos não tenho
Meu fim, sei fazer
Fritar no tempero
Com ar de lampeira
Fazendo petiscos
Dou salto a valer
Correndo a cidade
Não vejo rival
Não há quem
Me leve num falso arrastão
Portanto vaidosa
Eu digo em geral
Eu sou cozinheira de fogão.

Arroz, carne assada
Farofa cheirosa
Galinha ensopada
Fritada gostosa
Pequenas sardinhas
já não vou roubá-lo
E outras coisinhas
Que é mesmo um regalo

A minha patroa
Não come maxixe
O dono da casa
Tem birra ao jiló
A vida só leva
Dizer que é preciso
Que gosta de muito
Comer mocotó
Estando eu distante
Da tal confusão
Quitute foi feito
Pra me consertar
Fiteira, garbosa
De volta ao fogão
Eu vou pra cozinha

Inda preparar

Se algum dos senhores
quiserem, lhe digo
Aqui, eu não vivo
e não dão a saber
Não tenho vergonha
que eu vivo cativa
E faço trabalho 
por pouco dinheiro
Apronto jantares 
como bom prazer
A todos agada
meu bom paladar
Por isso me obriga
de ter o dever
de ser cozinheira
no trabalhar.



O Vatapá

Pepa:
O vatapá, comida rara
É assim, yayá, que se prepara.

Você limpa a panela bem limpa
Quando o peixe lá dentro já está
Bota o leite de coco e o gengibre
A pimenta da Costa e o fubá
Camarão torradinho se ajunta
Ao depois da cabeça tirada

Mário:
Mas então a cabeça não entra?

Pepa:
Qual cabeça, seu moço que nada...

Mexe direito pra não queimar
Mexe direito o vatapá...

Pepa:
Mindubim ou castanha torrada
O azeite do bom, de dendê
Na panela se bota e se mexe
Mas, precisa de mão pra mexer

Mário:
Pois, então, sinhá dona
eu mexo
Que sou cabra feroz neste assunto
Vem cair, já, num bom remelexo
Vamos, vamos, mexer nós dois juntos!



A Viuvinha

Choro: Ai, meu Deus, ai!
Como eu sou infeliz, meu Deus!

Viúva sou há quase um mês
E choro a triste viuvez
Pois meu marido era tão belo
Que era corcunda e sem cabelo
Sempre com mágoa me lamento
Que sempre evitei viver
Quando penhoro o pensamento
Não é capaz de lhe esquecer

Já morreu, levou a breca
Graça aos Céus!
Graça aos Céus!
O estafermo do marreca foi
já morreu!
Pulo e salto de contente
Oh, devoção!
Oh, devoção!
Ser viúva é excelente
Que reinação
Oh, ferro!

Volta a chorar: Ai, meu distinto marido, ah!

- Quer um lenço, minha senhora, eu tenho aqui.
- Eu não preciso, não.

Sempre foi anjo e bom rapaz
O que na cova agora jaz
Pois raramente me batia
Mais de uma vez em cada dia
Enorme mágoa me consome
Pois sempre falta hei de ter
Com minha pena passei fome
Quando não tinha que comer

Já morreu, levou a breca
Graça aos Céu!
Graça aos Céu!
O estafermo do marreca, vai
já morreu!
Pulo e salto de contente
Oh devoção!
Oh de voção!
Ser viúva é excelente
Que reinação!

- Vou me tornar a sentar.
Ai, meu Deus
Meu rico maridinho



A Lavadeira

Tua roupa suja limpando
Esquece a gente falar
Não é por me estar gabando
Que há muito o que contar

- Sim, isso que, 
uma coisa é a gente ver por ai.
Por essas ruas
Estas madamas todas
chiques e elegantes.
Trajando seda
E o custo de vida aumentando
E outra coisa e lidar-lhe
com as roupas brancas
Xi...

Dá-lhe que dá-lhe
ponto aqui, ponto acolá
Raro é aquela que não sabe
roupa toda se limpar


E com os homens acontece
A mesma coisa também
Muito que rico parece
Que uma só camisa tem

- E um par de meias
E um colarinho
E um , e um par de punhos
E uma camisola
E um, e um único de sardas
De maneira que
não só esta coisa 
vem lavar pouca coisa
Como gente lava

Lava que lava
Traz a qual o destino cru
Enquanto a gente o secava
Ele espera a roupa nu


Sujeito que por valente
Passa de tal bazofia
Veio um perguntar a gente
No que dá a valentia

- Sim, a gente logo conhece no que dá a valentia
Quando é um valente assim,
Um freguês valente
Oh, e tinha aqui de rolo, implicâncias
Conta que tinha havido um rolo!
Porque a lavadeira logo, logo conhece

Esfrega, que esfrega
Por mais que lhe tire o sabão
Como troféu da refrega
As ceroulas lá no chão


Tua roupa suja limpando
Esquece a gente falar
Não é por me estar gabando
Que há muito o que contar

- Se eu contasse tudo, tudo
Xi... era pra quinze dias
bem uma saída!
Levava convencendo as pessoas
E eu, então, pra não aborecer
pego na roupa e é:
Da-lhe que da-lhe
Ponto aqui, ponto acolá
Rara é aquela que não sabe
a roupa toda agilizar








quinta-feira, 18 de julho de 2013

GASTÃO LAMOUNIER & ALBÊNZIO PERRONE - Valsas Inesquecíveis

Dois dos grandes nomes de nossa música popular, em especial a romântica, nos trazem valsas brasileiras para embalar nossa noite.


GASTÃO LAMOUNIER E ALBÊNZIO PERRONE



Gastão Lamounier



Albênzio Perrone



Gastão Lamounier (São Paulo, 22/04/1894  - Rio de Janeiro, 28/01/1984) compôs algumas das mais belas valsas de nosso cancioneiro em parceria com outros bons compositores.
Albênzio Perrone (Marselha, França, 01/11/1906 - Rio de Janeiro, 07/07/1974) gravou nove delas.

Ouçam e sintam a beleza de cada uma delas.



Suave Poema de Amor
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento da Orquestra Gastão Lamounier
Disco Odeon 11.510-A, matriz 5616
Gravado em 02 de julho de 1937 e lançado em setembro desse mesmo ano.
Obs: Na parte instrumental, um dos "instrumentos" utilizados, de som rouco, trata-se de um serrote. 




Se Me Faltar O Seu Amor
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento da Orquestra Gastão Lamounier
Disco Odeon 11.510-B, matriz 5615
Gravado em 02 de julho de 1937 e lançado em setembro desse mesmo ano.




Apoteose de Estrelas
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento da Orquestra Victor Brasileira
Disco Victor 34.311-A, matriz 80709-1
Gravado em 22 de março de 1938 e lançado em maio desse mesmo ano.




Quando O Amor Chega Ao Fim
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento da Orquestra Victor Brasileira
Disco Victor 34.311-B, matriz 80710-1
Gravado em 22 de março de 1938 e lançado em maio desse mesmo ano.




Se Esses Olhos Falassem
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento da Orquestra Victor Brasileira
Disco Victor 34.347-A, matriz 80711-1
Gravado em 22 de março de 1938 e lançado em agosto desse mesmo ano.




Por Amor Ao Meu Amor
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento da Orquestra Victor Brasileira
Disco Victor 34.347-B, matriz 80712-1
Gravado em 22 de março de 1938 e lançado em agosto desse mesmo ano.




Lição de Amor
Valsa em parceria com Mário Castelar
Acompanhamento de Orquestra
Disco Victor 34.616-A, matriz 33384-1
Gravado em 17 de abril de 1940 e lançado em junho desse mesmo ano.




Cansei de Esperar
Valsa em parceria com Clímaco César
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.633-B, matriz Rio-10029
Gravado em 12 de janeiro de 1954 e lançado em abril desse mesmo ano.




E O Destino Desfolhou
Valsa em parceria com Mário Rossi
Acompanhamento de Orquestra
Disco Odeon 13.937-A, matriz Rio-10733
Gravado em 28 de agosto de 1955 e lançado em dezembro desse mesmo ano.







Agradecimento ao Arquivo Nirez








quarta-feira, 17 de julho de 2013

Cartaz de O Médico e o Monstro, 1932




Cartaz de O Médico e o Monstro no jornal Correio da Manhã. 
Rio de Janeiro, domingo, 01 de maio de 1932. Fonte: http://memoria.bn.br






segunda-feira, 15 de julho de 2013

BAHIANO, 69 anos de Saudade




Há 69 anos, em um sábado 15 de julho de 1944, falecia no Rio de Janeiro o mais popular cantor do começo do século XX, Manuel Pedro dos Santos, mais conhecido como BAHIANO.

Bahiano foi o primeiro cantor a gravar discos no Brasil e na América Latina, em 1902.
O célebre lundu Isto é Bom, do ator e compositor Xisto Bahia, foi gravado juntamente com dezenas de outras músicas na primeira sessão de gravação para discos em nosso País. Isto é Bom foi a primeira música a ser lançada, em disco Zon-O-Phone 10001.

De 1902 até meados da década de 1920, Bahiano gravou centenas de músicas dos mais variados estilos, fazendo antológicos duetos com vários (e também lendários) artistas de sua época. 

Cançonetista do tempo dos chopes berrantes, cafés concertos, Bahiano logo ficou popular no Rio de Janeiro e em São Paulo. Sua fama o levou às gravações em cilindros e nos discos (chapas), tornando sua popularidade maior ainda.

Versátil, ele estava sempre muito à vontade em suas gravações; assumindo personagens, brincava e implicava com Senhorita Consuelo e Júlia Martins, levando delas divertidas respostas. 
Braga, Escudeiro, O. de Azevedo, Cadete, Eduardo das Neves, Mário Pinheiro, entre outros, fizeram desafios ou duetos com ele. Assim, como Risoleta, Maria Roldan, Maria Marzulo, Isaltina e, até arrisco, Medina de Sousa, também gravaram em sua companhia. Aliás, Medina o levou a soltar sua voz em uma interpretação lírica.
Isso sem falar com os novos talentos de uma nova era, pós Belle Époque, como Vicente Celestino e Januário.

Além do pioneirismo, ele gravou muitos sucessos em discos, dos quais vários se tornaram clássicos de nosso cancioneiro: Perdão Emília, A Mulata, O Angú do Barão, O Sino da Tarde, Ai Philomena, Pelo Telephone... a lista, só dos clássicos, é imensa.

Digo mais. Bahiano, assim como mais tarde Aracy Côrtes, participou da transição de épocas marcantes. Ele, até mais que Aracy. 
Começando a gravar em 1901 (cilindros) e depois em 1902 (discos), juntamente com o início da indústria fonográfica brasileira, ele trazia toda a bagagem cultural e modismos do século XIX. Até então, a única forma de se divulgar a música eram as partituras, teatro musical e bandas de músicas. As composições ficavam um pouco presas em cada cidade, principalmente no Rio de Janeiro, onde eram propagadas entre os moradores. Como vantagem, haviam as partituras para piano e canto, que rodavam o país (e mundo); também, as heroicas excursões feitas pelas trupes teatrais e, não menos importantes, os cantadores, boêmios, e os amantes da música popular, que saiam espalhando as melodias e letras por onde conseguissem chegar. O povo era também um grande divulgador.

Com a chegada da gravação em disco, isso mudou. Ficou mais fácil levar as chapas para as várias regiões do Brasil, onde seriam ouvidas por muitas pessoas, entre um misto de espanto e prazer.

Havia um detalhe: os inúmeros sucessos dos tempos do Brasil Colônia, do Império e início da República, não poderiam cair no esquecimento. Muitos estavam fresquinhos na memória da população graças ao teatro de revista e suas atrizes, e aos cançonetistas que entretinham o público dos cafés concertos. Dessa forma, Bahiano e seus colegas gravaram muitos sucessos de peças teatrais, modinhas e poesias de grandes e saudosos talentos; bem como precisavam ir registrando os sucessos da atualidade e seus modismos.

Dessa forma, ele viveu vários personagens em suas gravações. Saindo do Império, com suas modinhas em cançonetas, ingressou na República, com os lundus que faziam as delícias das plateias teatrais, afinal, ninguém esquecera da Sabina e o fazendeiro Euzébio; ingressou na Belle Époque, cantando o Art Nouveau e sua interessante moda, como também registrou acontecimentos marcantes de sua atualidade, afinal, "A Europa curvou-se ante o Brasil" e entre o clamor de parabéns em meio tom, "apareceu Santos Dumont". Engraxou, foi abanador apaixonado por uma Vassourinha e, até, Feiticeiro, onde partiu com sua Cigana para encontrar a buena dicha nas linhas do coração. Veio a Primeira Grande Guerra e ele cantou para os soldados que partiam. Nesse meio tempo, gravou modinhas lindíssimas e, ele mesmo, também registrou suas impiedosas paródias. Com o sucesso teatral de sua amiga Julinha Martins, colocou a Philomena na história de tal forma que, no futuro (muito futuro) iam incluir um coelhinho no meio, em uma paródia muito sem-vergonha (para usar um termo de outrora). Ai, Philomena, seu eu fosse como tu... 

E assim ele foi gravando, sempre animado e inspirado. Se haviam acabado as cançonetas, surgia o samba. Por onde? Pelo Telephone mesmo! Afinal, tudo podia ser motivo para um samba ou uma marcha, até um Pé de Anjo
Sempre reencontrando os colegas, gravou com o coro do Theatro São José, onde sua velha amiga Julinha Martins se sobressai no coro. Aliás, esses dois gravaram nada menos que a Cabocla de Caxangá. Nas palavras de hoje, Júlia Martins e Bahiano tinham uma química incrível nas gravações.

Mas, os anos 20 já vinha com seus jovens e novos astros. Mesmo assim, o sr. Manuel Pedro ainda emplacou sucessos, antes de se afastar. Nesse fase final de sua carreira, nada menos que Luar de Paquetá; Ai, Seu Mé; Sai da Raia; De Bam Bam Bam; Vida Apertada...

Mas, ele se afastou. Nosso querido País, ao mesmo tempo em que acolhia os novos talentos da década de 30, esquecia-se de seus antigos intérpretes. Os meios de comunicação, a mídia e as informações aumentavam e se propagavam de forma assustadoramente rápida, mas isso em nada ajudava a lembrar dos pioneiros. E olha que haviam se passado apenas três décadas.

Nesse esquecimento ele faleceu. Nascido na Bahia (05 de dezembro de 1870), na cidade de Santo Amaro da Purificação, Manuel Pedro dos Santos, faleceu meses antes de completar 74 anos.

Para os pesquisadores, amantes da boa e pioneira MPB, ele será sempre lembrado. Nunca sairá de moda. 
Em nossos assuntos musicais ele nunca precisará de permissão para fazer parte, basta repetirmos euforicamente a exclamação de Júlia Martins em uma de suas gravações: "Entra, Bahiano!".


Por Marcelo Bonavides de Castro
Fortaleza, 15 de julho de 2013




Diário de Notícias.
Sábado, 16 de julho de 1944.
http://memoria.bn.br




Entre as músicas que selecionei, escolhi trazer um Bahiano romântico.
Confiram!


Quem Eu Sou
Modinha
Disco Odeon Record 120.917
Lançado em fevereiro de 1914




Último Beijo (Suplication)
Valsa de W. J. Peans e Gutemberg Cruz
Acompanhamento de Violão
Disco Odeon Record 120.984
Lançado em 1914




Márcia
Valsa de A. Nelson
Disco Odeon Record 120.992
Lançado em 1916




Juramento Esquecido
Modinha
Acompanhamento de cavaquinho e violão
Disco Odeon Record 121.015, matriz B-5
Lançado em 1915




Não Sei
Modinha
Acompanhamento de violão e cavaquinho
Disco Odeon Record 121.019
Lançado em 1915








Agradecimento ao Arquivo Nirez








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