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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

ARACY CÔRTES - 35 ANOS DE SAUDADE DE UMA LINDA FLOR


ARACY CÔRTES
Illustração Moderna, 1924
http://memoria.bn.br/



Há 35 anos falecia a grande atriz-cantora ARACY CÔRTES.

Zilda de Carvalho Espíndola nasceu no Rio de Janeiro em 31 de março de 1904, na rua do Matoso, perto da Praça da Bandeira. Era filha de Argemira Carvalho Espíndola e Carlos Espíndola. Ela diria tempos depois: “Sou uma mestiça terrível: filha de brasileiro com espanhol e neta de paraguaio”. Carlos era filho de espanhol com paraguaia e Argemira era filha de português com brasileira. O casal teve dois filhos antes de Zilda: Silvino e Dalva.

Ainda menina, ela iria com a família morar no Catumbi, na rua Magalhães, onde seria vizinha da família Rocha Viana, que reunia os amigos para rodas de choro e muita música brasileira. Um dos filhos dessa família seria Pixinguinha, amigo de infância de Zilda e seus irmãos. Nas rodas de música, comandada por Alfredo, pai de Pixinguinha, os filhos tomavam parte tocando instrumentos, inclusive o amigo Carlos Espíndola, que também era flautista, admirador de Joaquim Callado. No meio da roda, duas meninas acompanhavam o ritmo, dançando: Dalva e Zilda.

Segundo Roberto Ruiz, biógrafo de Aracy Côrtes, em criança, seu pai exigiu que ela estudasse: o ginasial, datilografia, francês e inglês. Carlos aprendera a tocar flauta com o mestre João Salgado, ensinando à filha uma rica musicalidade. Um dia, ela chegou com a novidade: havia sido convidada para atuar no grupo amador Filhos de Talma.

Nessa época, os grupos amadores tinham grande importância, revelando vários talentos. Os Filhos de Talma estavam entre os mais prestigiados, com um pequeno palco na rua do Propósito, na Saúde. A jovem Zilda ficaria pouco tempo neste grupo. Foi depois para o Circo Spinelli, onde brilhava o célebre Benjamin de Oliveira.

Aos dezesseis anos de idade, em 1920, ela estreava no circo. Porém, mesmo dizendo ter bastante experiencia, ao encarar uma grande plateia, a jovem se assustou e ficou paralisada, com a orquestra esperando-a começar a cantar, então... desmaiou. Recebendo uma nova chance, não decepcionou, cantou como sabia, o público gostou e pediu que ela repetisse.

Zilda gostava de ser chamada artisticamente como Zilda mesmo. E assim ela passou a participar da Companhia Arruda, dirigida por Genésio Arruda, especializado em tipos caipiras. Porém, seu amigo de infância Otávio Viana, o China, irmão de Pixinguinha (e segundo Roberto Ruiz, compadre de Argemira, mãe de Zilda), pensava o contrário: não era um nome muito artístico. Ele e o crítico teatral Mário Magalhães conversavam sobre isso, na redação do jornal A Noite, pois China e Pixinguinha agora tinham um novo grupo, os Oito Batutas, e precisavam de uma cantora para acompanha-los nas apresentações. China havia sugerido Zilda, mas ambos estavam de acordo com a substituição de seu nome artístico.

Depois de pensarem muito, decidiram que um nome bem brasileiro seria Aracy, mas Aracy de quê? Após muito discutirem e não encontrarem solução (a essa altura, até o secretário do jornal, Silva Ramos, participava da conversa), entrou da rua, muito agitado com uma notícia urgente, um repórter policial. Na mesma hora, Mário Magalhães pulou da cadeira e gritou:

- Côrtes, meu velho! Você veio na hora certa!

O repórter Côrtes não entendeu nada. Silva Ramos soltou uma gargalhada e, segundo ainda Roberto Ruiz, Mário Magalhães virou-se para China, dizendo:

- Está aí, seu China! Está aí o novo nome da moça!

Assim, Zilda ia desaparecendo do cenário artístico, surgindo Aracy Côrtes.

Porém, não pensem que foi uma mudança fácil. De início Zilda não aceitou o novo nome e, para completar, havia uma Aracy Côrtes, professora conhecida no cenário da educação do Rio de Janeiro na época. A professora Aracy Côrtes também ficou irritada, achando que queriam desmoraliza-la. 


Grupo de alunos da professora Aracy Côrtes.
O Malho 1912.
http://memoria.bn.br


Mas, aos poucos Zilda foi aceitando. Não sem antes fazer uma experiência e se apresentar com os Oito Batutas como Zilda Côrtes.

Seria como Zilda Côrtes que ela faria sua estreia no teatro, em 15 de outubro de 1921 na burleta Na casa da Chica do Velho, onde interpretava Chica. O resto do elenco era interpretado pelos integrantes dos Oito Batutas e outros artistas: Mané Piqueno (Galleguinho), Octavio Vianna (Bolacha), José de Lima (Juca Ficha), Ernesto dos Santos (Porfirio Grosso), João Thomaz (Pinga-Fogo), Alfredo Santos (Pé Leve), Nelson Alves (Cambucá), Sizenando de Oliveira (Pendenga), José Monteiro (Boa Vida). 

O teatro era o Polytheama Meyer, onde o grupo fazia apresentações. Em 22 de outubro, apresentavam a mesma peça no Theatro Eden.


Zilda Côrtes ao lado dos Oito Batutas.
A Noite, 10 de outubro de 1921, p.5.
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Zilda Côrtes ao lado dos Oito Batutas em Na casa da Chica do Velho.
A Noite, 15 de outubro de 1921, p.5.
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Zilda Côrtes ao lado dos Oito Batutas em Na casa da Chica do Velho.
O Fluminense, 22 de outubro de 1921, p2.
http://memoria.bn.br


Com seu novo nome artístico Aracy Côrtes, Zilda estrearia no Teatro de Revista em 31 de dezembro de 1921, um sábado, na revista Nós, Pelas Costas. Levada à cena no Theatro Recreio, a peça era da autoria de J. Praxedes, com música do maestro Pedro de Sá Pereira. Os jornais anunciavam que o empresário e ator João de Deus havia contratado para estrearem no espetáculo os artistas A. Vidal e Aracy Côrtes. Ela interpretaria os personagens: Guitarra Falsa, Rosa Branca e Vinho do Porto. Nessa peça também estava a atriz Célia Zenatti que, em breve, seria esposa do (então) iniciante cantor e ator Francisco Alves.


Correio da Manhã, 28 de dezembro de 1921, p. 05
http://memoria.bn.br/


O Paiz, 29 de dezembro de 1921, p. 07
http://memoria.bn.br/


O Paiz, 30 de dezembro de 1921, p. 12.
http://memoria.bn.br/


O Paiz, 31 de dezembro de 1921, p. 05.
http://memoria.bn.br/


Correio da Manhã, 31 de dezembro de 1921
http://memoria.bn.br/

 
A próxima revista em que Aracy Côrtes tomaria parte estreou em 19 de janeiro de 1922 e se chamava Ver, Ouvir e Callar... Com o passar dos anos, ela ia se aprimorando, ganhando mais visibilidade e fazendo sucesso junto ao público e à crítica teatral. Nos anos 20, sua irmã Dalva Espíndola também seria atriz, atuando na famosa Companhia Negra de Revistas, onde lançou o famoso maxixe de Sebastião Cirino, Cristo Nasceu na Bahia, em 1926.


Aracy Côrtes, anos 20.
Livro Aracy Côrtes - Linda Flor, de Roberto Ruiz (Funarte)
Arquivo Marcelo Bonavides


Illustração Moderna, 1924
http://memoria.bn.br/


Illustração Moderna, 1924
http://memoria.bn.br/



Illustração Moderna, 1924
http://memoria.bn.br/







Em 1925, Aracy Côrtes fez suas primeiras gravações em discos mecânicos pela Casa Edison, em selo Odeon Record. Ela registrou A Casinha (da Colina), de Pedro de Sá Pereira; Serenata, de E. Toselli e Petropolitana, canção de Adalberto de Carvalho, que a famosa atriz-cantora Pepa Delgado havia lançado 10 anos antes. Voltaria a gravar, agora no processo elétrico, em 1928, lançado sucessos como Chora Violão, de Josué de Barros; Baianinha, de De Chocolat e Oscar Mota; Jura!..., de Sinhô (José Barbosa da Silva) e Yayá (Linda Flor), de Henrique Vogeler, Marques Porto e Luiz Peixoto, todas em selo Parlophon. Gravaria ainda na Brunswick e na Odeon até, aproximadamente, 1934, voltando a gravar nos anos 50 e 60.

Da segunda metade da década de 1920 em diante, Aracy Côrtes dominaria a cena do Teatro de Revista na Praça Tiradentes, sendo considerada uma de suas mais queridas Rainhas. Lançou diversos compositores como Noel Rosa, Ary Barroso, Assis Valente, entre outros, brilhando até o começo da década de 1940, quando se afastou dos palcos por alguns anos.

Retornaria em algumas aparições na década de 1950 e, com muito sucesso, em 1965 no espetáculo Rosa de Ouro, ao lado de Elton Medeiros e Paulinho da Viola, onde estreava Clementina de Jesus.

Ao longo dos próximos anos, Aracy Côrtes foi sendo esquecida pela grande mídia, fazendo poucos shows e enfrentando dificuldades financeiras, sendo amparada por amigos fiéis e dedicados como J. Maia e a cantora Marília Barbosa, que Aracy declarou sua sucessora e herdeira artística. As duas cantariam juntas em um memorável show na Funarte em 1984, celebrando os 80 anos de vida de Aracy.

Aracy Côrtes faleceu no Rio de Janeiro em 08 de janeiro de 1985, aos 80 anos de idade.


Parte do Jornal do Brasil, de 09 de janeiro de 1985.
Mesmo Aracy Côrtes tendo feito sucesso vestido de baiana muitos anos antes de Carmen Miranda
ela não foi a primeira atriz a adotar a fantasia. Desde 1889 as atrizes já adotavam essa vestimenta nos palcos.


Aracy Côrtes em 1981, aos 77 anos.Livro Aracy Côrtes - Linda Flor, de Roberto Ruiz (Funarte)
Arquivo Marcelo Bonavides




Trago suas primeiras gravações deitas pela Odeon Record (Casa Edison) e Parlophon.



A CASINHA


Canção de Luís Peixoto e Pedro de Sá Pereira
Acompanhamento do Jazz Band Sul Americano Romeu Silva
Disco Odeon Record 122.884
Lançado em 1925



PETROPOLITANA


Canção de Adalberto de Carvalho
Acompanhamento do Jazz Band Sul Americano Romeu Silva
Disco Odeon Record 122.885
Lançado em 1925



JURA...!


Samba de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Acompanhamento de Simão Nacional Orquestra
Disco Parlophon 12.868-A, matriz 2071
Lançado em novembro de 1928



CHORA VIOLÃO


Canção Sertaneja de Josué de Barros
Acompanhamento de piano e violão
Disco Parlophon 12.868-B, matriz 2083
Lançado em 1928



YAYÁ


Canção Brasileira de Henrique Vogeler, Marques Porto e Luís Peixoto
Acompanhamento da Orquestra Parlophon
Disco Parlophon 12.926-A, matriz 2366
Lançado em março de 1929



BAIANINHA


Samba de De Chocolat e Oscar Mota

Acompanhamento da Orquestra Parlophon
Disco Parlophon 12.926-B, matriz 2365
Lançado em março de 1929












Agradecimento a Gilberto Inácio Gonçalves e ao Arquivo Nirez










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