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segunda-feira, 11 de março de 2019

PEPA DELGADO - 74 ANOS DE SAUDADE DE UMA FASCINANTE ARTISTA


PEPA DELGADO
"A ti, querido pae meu amigo.
Tua filha,
Pepa Delgado
Rio 23 - 10 - 1913"
Arquivo Marcelo Bonavides


Nesses trinta anos de pesquisas musicais, tenho tido a felicidade de conhecer o trabalho e a vida de várias mulheres fascinantes. Dentre elas, destaco Pepa Delgado, cujo trabalho tive conhecimento no começo da década de 1990, através do saudoso amigo e colecionador musical Célio Oliveira. Em pouco tempo, tive contato com sua família, conversando com seu filho e neta, pessoas amáveis e cordiais. Posso dizer que a amizade com a família Delgado fez com que eu passasse a considerar Pepa uma figura da família, uma avó ou tia avó querida. Mas o trabalho de pesquisador continuava, buscando conhecer mais sobre sua vida e carreira. Ao longo dos anos fui coletando esses dados, juntamente com o material que sua neta e filho me presentearam, contendo fotografias, discos, caderno de anotações... Em junho de 2018, ao apresentar minha monografia na conclusão do curso de graduação em História, pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), o tema da pesquisa era justamente Pepa Delgado e sua vida. O máximo de informações que eu pude reunir até então me possibilitou escrever sobre essa artista ímpar, cuja vida despertou admiração em quem acompanhou meu processo de pesquisa, escrita e apresentação.

Maria Pepa Delgado nasceu em Piracicaba, interior de São Paulo, em 21 de julho de 1886. A data correta de seu nascimento (1886) foi descoberta ao longo da pesquisa. Ela era filha de Ana Alves, natural de Sorocaba, e do espanhol Lourenço Delgado.

Lourenço Delgado, já no Brasil em meados da década de 1870, foi um famoso toureiro, que se apresentava pelo interior de São Paulo e pelo sul do país, em apresentações repletas de aventuras.

Pouco soubemos sobre a infância de Pepa Delgado, mas vamos encontra-la em 1900, ainda com 13 anos de idade, fazendo parte da famosa companhia teatral de Dias Braga, excursionando em seguida pelo Norte do País. A primeira peça em que encontramos sua participação foi em O Domador de Feras, exibida em Belém (PA) em 14 de julho de 1900, sete dias antes de ela completar 14 anos de idade. Seu papel era uma figuração, como uma das desterradas.


PEPA DELGADO
Arquivo Marcelo Bonavides


De 1900 a 1904, Pepa Delgado foi se aprimorando no teatro, atuando em comédias estrangeiras, que eram traduzidas para o português, e em dramas de época. Porém, o ano de 1904 foi importante e decisivo em sua carreira, pois nessa época ela teria novas experiências profissionais e desafios importantes. Primeiro, ela estrearia em um gênero bastante conhecido de nosso público, mas novo para ela, o teatro de revista. Depois, também faria estreia no ainda iniciante mercado fonográfico brasileiro, gravando vários discos para a Casa Edison do Rio de Janeiro.

Em 1904, Pepa Delgado estreou a revista Cá e Lá, de Tito Martins e Bandeira de Gouveia, onde as estrelas eram Aurélia Delorme e Cinira Polônio. Inicialmente, Pepa interpretava cinco personagens na peça. Com o passar do tempo, Aurélia Delorme precisou se afastar do espetáculo e Pepa Delgado a substituiu, passando a interpretar nove personagens, além de aparecer dançando o Maxixe Aristocrático com o ator Marzullo e interpretar o papel de Prostituição, contando com onze aparições na peça.

O outro sucesso teatral seria a revista Avança!, de Álvaro Peres e Álvaro Colás. A montagem contava com uma grande produção, contando com os maestros Assis Pacheco e José Nunes (este, regendo a orquestra) e figurinistas de renome, como o pintor Rodolfo Amoedo. Pepa Delgado interpretava oito personagens. O título da peça evocava uma gíria carioca que possuía alguns significados, entre eles o fato de, na elite da sociedade, quando era servida refeição em uma festa, os cavalheiros se atiravam aos pratos feito loucos, deixando as senhoras horrorizadas. Era a hora do “avança”. Segundo os jornais, tal comportamento não acontecia nas classes mais baixas, pois as pessoas buscavam exibir um comportamento educado.


Pepa Delgado
Theatro & Sport
02 de maio de 1914
http://memoria.bn.br



PEPA DELGADO
Arquivo Marcelo Bonavides


O sucesso dos números musicais das duas revistas levou Pepa Delgado a gravar alguns discos na Casa Edison, nossa primeira gravadora, que se situava à Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro. Sucessos das peças como O Abacate, cançoneta de Chiquinha Gonzaga, Tito Martins e Bandeira de Gouveia (de Cá e Lá) e A Recomendação, cançoneta de Assis Pacheco (de Avança!) foram lançadas ainda em 1904, quando o êxito das peças ainda estava vivo na memória do público.

Seus discos foram gravados na Odeon Record e na Columbia Record entre 1904 e 1910. A Columbia relançaria algumas de suas músicas em 1912. Ela gravaria sozinha e em parceria com Alfredo Silva e, em várias ocasiões, com Mário Pinheiro. Músicas do século XIX, como As Laranjas da Sabina, de Arthur Azevedo, seriam gravadas por ela. Com Mário Pinheiro, ela registraria ainda em 1904, Um Samba na Penha, da revista Avança!.

Ao longo da década de 1910, Pepa Delgado procurou estudar e se aprimorar como atriz-cantora. Arthur Azevedo, em uma crítica à ela, disse que se ela estudasse e se dedicasse, daria boa coisa de si. E, ao que parece, ela seguiu o conselho do dramaturgo. Ao começo da década de 1910, ela já era uma conhecida atriz, cujo nome era bem visto entre a crítica e público, atuando em importantes companhias, lançando discos e fazendo excursões pelo Nordeste e Sul do país.

Essa popularidade aumentaria mais ainda em 1911, quando ela foi contratada pela Empresa Paschoal Segreto, passando a atuar no Theatro São José. Nessa casa de espetáculos, ela seria estrela, ao lado de Cinira Polônio, Júlia Martins e Cecília Porto. Estreou peças antológicas, como Forrobodó, de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, com música de Chiquinha Gonzaga; fez sucesso com Manobras do Amor, opereta de Osório Duque-Estrada; firmou-se na carreira com a opereta A Gatinha Branca, de Veijan e Capella, em versão de C. Nazareth e com música de Brito Fernandes e fez o público delirar em Dança de Velho, de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt, quando ao lado de Júlia Martins (ambas luxuosamente fantasiadas), atravessava a plateia do Theatro São José, acompanhadas de uma charanga, empunhando estandartes de blocos de carnaval, numa explosão de cores. O público ovacionou as atrizes por um longo tempo.



PEPA DELGADO
Arquivo Marcelo Bonavides


Companhia Alfredo Silva, 1915.
Pepa Delgado sentada ao centro.
Arquivo Marcelo Bonavides


Entre as peças que fazia, ela ainda tinha tempo de aparecer no cinema, como em 1908, ao estrelar o curta Sô Lotero e Nhá Ofrasia com seus produtos à exposição.

Ao se desligar do Theatro São José, em 1917, Pepa Delgado enfrentou novos desafios. Trabalharia em algumas companhias teatrais, em circos e também como cançonetista. Fundaria sua própria companhia, a Companhia Pepa Delgado. Nesse período, ela emplacaria alguns sucessos, em peças sertanejas.


Pepa Delgado, 1918.
http://memoria.bn.br


Provavelmente no meio teatral, Pepa Delgado conheceu o oficial do Exército Almerindo Álvaro de Moraes. Em 1916, eles tinham um compromisso sério. Isso causou a inveja de algumas colegas da atriz, que tentaram sabotar o relacionamento, sem sucesso. Soubemos do acontecido em uma carta escrita à Almerindo pelo ator, e seu amigo, João de Deus, que defendia Pepa. Almerindo também era tesoureiro do Clube dos Democráticos, uma das mais tradicionais associações carnavalescas do Rio de Janeiro.

Pepa Delgado passou a morar com Almerindo na primeira metade da década de 1920. Mesmo estando grávida, em 1924, ela ainda trabalharia em sua companhia. Porém, ao nascer seu filho Heitor, em 27 de janeiro de 1925, ela abandonaria a carreira para se dedicar à família. O casal Pepa e Almerindo se casariam no civil em 1936.

Pepa Delgado aproveitou ao máximo sua família por vinte anos. Morando no bairro carioca do Encantado, seu quintal era ligado ao quintal da cantora Aracy de Almeida. Ela organizava festas como São João, ajudava a Igreja local e também ajudava novos talentos artísticos, como o ator e humorista Colé Santana (tio do “Trapalhão” Dedé Santana), que morou no porão do casal no início de sua carreira. Pepa era também madrinha de batismo da soprano índia Abigail Aléssio Parecis, que a acolheu ainda criança, sendo adotada pelo maestro Filipo Aléssio.

No início de sua carreira, o tenor Vicente Celestino atuou bastante ao lado de Pepa Delgado em peças de teatro de revista. Ela foi uma das primeiras pessoas a incentivar seu talento.

Seu filho me contava, e alguns pesquisadores já ouviram essa notícia, de que Pepa Delgado convenceu o empresário Fred Figner, dono da Casa Edison, a doar um terreno que tinha em Jacarepaguá para a construção do Retiro dos Artistas. Infelizmente, até o momento não conseguimos algum documento que comprovasse a informação. Até o fim de sua vida Pepa Delgado contribuiu com uma quantia para a instituição. Na inauguração do Retiro, podemos vê-la entre as pessoas presentes.

Pepa Delgado faleceu em 11 de março de 1945, vitimada por hepatite. Seu filho tinha vinte anos de idade. Com seu desaparecimento, uma parte importante de nossa história do teatro de revista e do disco também ia embora.


Pepa Delgado em seu último aniversário.
Foto tirada em 21 de julho de 1944,
 quando ela completava 58 anos de idade.
Foto tirada por seu filho, Heitor, 
em frente à casa da família.
Arquivo Marcelo Bonavides.



Já homenageamos Pepa Delgado em outras ocasiões:

PEPA DELGADO - 73 ANOS DE SAUDADE: http://bit.ly/2XPBxAF
PEPA DELGADO - 130 ANOS: http://bit.ly/2u1gGwo
PEPA DELGADO, ARACY CÔRTES E A PETROPOLITANA: http://bit.ly/2XRM6TF
PEPA DELGADO - 72 ANOS DE SAUDADE: http://bit.ly/2TwMY1y
PEPA DELGADO - 129 ANOS: http://bit.ly/2SWUqOj
PEPA DELGADO - 128 ANOS: http://bit.ly/2XRSMS2
PEPA DELGADO E SEU PAI: http://bit.ly/2VPWhpX
PEPA DELGADO, os 126 anos da primeira grande cantora brasileira: http://bit.ly/2T1GJhm
PEPA DELGADO, 68 anos de Saudade: http://bit.ly/2HbVGvB
PEPA DELGADO, 125 anos: http://bit.ly/2F6TmUF
AS LARANJAS DA SABINA: http://bit.ly/2u1KgSC



Trago algumas de suas gravações, realizadas na Odeon Record e Columbia Record, entre 1904 e 1910.



O ABACATE


Cançoneta de Chiquinha Gonzaga, Tito Martins e Gouveia.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.059, matriz R-379
Lançado em 1904
Da Revista “Cá e Lá”



UM SAMBA NA PENHA


Maxixe de Assis Pacheco, Álvaro Peres e Álvaro Colás.
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.063, matriz R-489
Lançado em 1904
Da Revista “O Avança”



A RECOMENDAÇÃO


Cançoneta de Assis Pacheco.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.064
Lançado em 1904
Da Revista “O Avança”



O EIXO DA AVENIDA


Valsa de Assis Pacheco.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 10.065
Lançado em 1904
Da Revista “O Avança”



MARIXE ARISTOCRÁTICO
Maxixe de José Nunes
Gravado por Pepa Delgado e Alfredo Silva
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.224, matriz RX-161
Lançado em 1905
Da Revista “Cá e Lá”



LARANJAS DA SABINA
Lundu de Arthur Azevedo
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.350
Lançado em 1906
Da Revista “A República”



CORTA JACA
Maxixe de Chiquinha Gonzaga e letra do ator Machado Careca
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.392
Lançado em 1906



VEM CÁ, MULATA
Maxixe de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhado de piano
Disco Odeon Record 40.407
Lançado em 1906
Da Revista “O Maxixe”



O FIDALGO E A CAMPONESA


Dueto

Gravado por Pepa Delgado e Mário
Acompanhado de violão
Disco Odeon Record 40.473
Lançado em 1906



O QUINDIM DA MODA


Cançoneta sobre a melodia de O Angú do Barão, de Ernesto de Souza.
Gravado por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Odeon 40.487
Lançado em 1906



O VENDEIRO E A MULATA


Dueto
Gravado por Pepa Delgado e Mário
Acompanhamento de piano
Disco Odeon Record 40.599
Lançado em 1906



NO SAMBA
De José Nunes, mesma melodia de “A Pimentinha”, lançada em 1913 por Risoletta e Eduardo das Neves.
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record 11.646
Lançado em 1910



NÃO PERGUNTES
Canção de Chiquinha Gonzaga com versos de Catulo da Paixão Cearense

É a mesma melodia de O Que é Simpatia?,também de Chiquinha Gonzaga.
Gravada por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Columbia Record 11.732
Lançado em 1910



SERESTA
Dueto de José Nunes
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record 12.303
Lançado em 1910



O VATAPÁ (DO MAXIXE)
Maxixe de Paulino Sacramento
Gravado por Pepa Delgado e Mário Pinheiro
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia B-31, matriz 11.644
Lançado em 1912
Da Revista “O Maxixe”



A COZINHEIRA
Cançoneta
Gravada por Pepa Delgado
Acompanhamento de Orquestra
Disco Columbia Record B-31, matriz 11.626
Lançado em 1912



A VIUVINHA
Cançoneta
Gravada por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Columbia Record B-39, matriz 11.716
Lançado em 1912



A LAVADEIRA
Cançoneta
Gravada por Pepa Delgado
Acompanhamento de piano
Disco Columbia Record B-39, matriz 11735
Lançado em 1912
Da Revista “Só pra Homens”











Agradecimento a Sandor Buys e ao Arquivo Nirez










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