sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

FRANCISCO ALVES - 100 ANOS DE SUAS PRIMEIRAS GRAVAÇÕES


FRANCISCO ALVES, 1921.
"Offereço a minha idolatrada Mãe,
como lembrança de seu filho,
Francisco Alves
Rio - 12-9-921"
Arquivo Nirez




FRANCISCO ALVES
100 ANOS DE SUAS PRIMEIRAS GRAVAÇÕES


Em outubro de 2019 completou-se cem anos que o cantor FRANCISCO ALVES fez suas primeiras gravações através do selo Popular Record da propriedade de João Gonzaga.  

Em outubro de 1919, Francisco Alves era um jovem de 21 anos que tentava a sorte na carreira artística. Sua irmã, Nair Alves, era atriz do Teatro de Revista e já possuía algum prestígio no cenário artístico, o que iria aumentar ainda mais na década de 1920. Francisco Alves, também batizado de Chico Viola pela atriz Zazá Soares, a Bela Zazá, procurava seguir os passos da irmã.

Segundo Francisco Alves, em suas memórias publicadas na revista O Cruzeiro em 1951, ele e o compositor Sinhô (José Barbosa da Silva) se conheceram em uma festa, onde ambos cantaram as composições do próprio Sinhô. Logo ficaram amigos e, dias depois, na loja de discos e partituras Casa Viúva Guerreiro (então, situada à Rua do Ouvidor) marcaram um novo encontro. Foi aí que Sinhô informou ao jovem Chico que João Gonzaga estava saindo da Casa Edison e abrindo sua própria gravadora, A Popular, no quintal de sua casa (à Rua Barão de Bom Retiro), onde vivia com a esposa, a maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga.

No dia combinado, Francisco Alves seguiu para o local da gravadora acompanhado de algumas garotas, suas sobrinhas. Também ia com o grupo seu amigo Juvenal Fontes, o Jeca Tatu, que fariam o coro das gravações. Em suas recordações, o cantor dizia não terem recebido nem o dinheiro das passagens, afinal, era uma tentativa, e “tudo se fazia na base do sacrifício”, como lembrou em 1951.

As músicas gravadas eram da autoria de Sinhô e seriam: a marcha O Pé de Anjo e os sambas Papagaio Louro (Fala, meu Louro) e Alivia Esses Olhos. O acompanhamento foi feito pelo Grupo dos Africanos. A numeração dos discos Popular Record, respectivamente, ficou 1.008, 1.009, 1.010 e eles seriam lançados em 1920.

Segundo ainda Francisco Alves, em 1951, os discos venderam pouco e ele, como cantor, não fez sucesso. Desanimado, pensou em abandonar a carreira artística, mas Sinhô o convenceu do contrário.

Francisco Alves passaria por sérias dificuldades pessoais em 1920, mas tudo melhoraria com o passar do tempo e ele continuaria sua carreira como cantor e ator. Falaremos disso em breve.

Se os discos de Francisco Alves não fizeram sucesso, as músicas por eles lançadas tiveram grande êxito no Carnaval de 1920. Muito provavelmente pela divulgação de Sinhô através das partituras para piano. Afinal, o compositor era um grande divulgador de sua obra, fazendo isso com grande acerto.

A marcha O Pé de Anjo se tornou muito popular e chegou a ser o título de uma revista carnavalesca lançada no começo de 1920 que fez muito sucesso, popularizando mais a marchinha. No elenco brilhavam Otília Amorim, Pedro Dias, Henriqueta Brieba, Júlia Martins e Alfredo Silva. A peça foi um dos marcos do Teatro de Revista. A marcha ainda seria gravada em disco Popular Record, de número 1.000, pelo Bloco do Fala Meu Louro, também em outubro de 1919. Em 1923, o veterano e célebre cantor Bahiano lançaria sua gravação de O Pé de Anjo, pela Odeon Record, em disco 122.453. Segundo Abel Cardoso Júnior, essa marcha era uma resposta ao samba de Pixinguinha e seu irmão China (Otávio Viana), Já te Digo (parte da polêmica musical Sinhô x Pixinguinha). Pé de Anjo significava “pés grandes” e, com esse título, Sinhô fazia uma sátira a China, que diziam ter pés enormes.

Fala Meu Louro, samba, foi anunciado como no início da gravação como Papagaio Louro (seu subtítulo), em desacordo com o selo. A música mexia com o político baiano Ruy Barbosa: “misto de irreverência (embrulhar o carioca) e admiração pelo tribuno (bico dourado) e intelectual (coco de respeito)”. Ruy Barbosa fora derrotado na disputa eleitoral para presidente em 1919 e resolveu ficar em um “surpreendente mutismo”, intrigando Sinhô que, no samba, pergunta: “Qual a razão que vives calado?”. Fala Meu Louro seria gravado como Papagaio Louro em disco Popular Record pelo Bloco do Fala Meu Louro, em disco nº 1.001. Bahiano também o gravaria em 1923 e Mário Reis, em 1951. A cantora e atriz Zezé Mota interpretou de forma magistral esse samba no primeiro capítulo da novela Kananga do Japão, exibida em 1989 pela Rede Manchete. Também foi título de peça do Teatro de Revista no começo da década de 1920.

O samba Alivia Esses Olhos foi também gravado em outubro de 1919 pelo Banda do Grupo dos Africanos, em disco Popular Record nº 1.004. Francisco Alves o regravaria em 1929, com alterações de versos, trazendo o título de Eu Queria Saber, também da autoria de Sinhô. No Teatro de Revista era cantado com outra letra, em dueto.

Na introdução dos discos, o locutor apresenta “Bloco dos Africanos”, enquanto que no selo dos discos sai “Grupo dos Africanos”.

Francisco Alves voltaria a gravar em 1924, pela Odeon Record. Mas, só seria a partir de 1927 que ele alcançaria grande êxito como cantor. E isso será contado em uma próxima postagem.



Primeiras Gravações de Francisco Alves



O PÉ DE ANJO

Selo de O Pé de Anjo
Arquivo Nirez

Marcha Carnavalesca de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Gravada por Francisco Alves
Acompanhamento do Grupo dos Africanos
Disco Popular Record 1.008, matriz 1008-2
Gravado em outubro de 1919 e lançado em 1920


Eu tenho uma tesourinha
Que corta ouro e marfim
Guardo também para cortar
As línguas que falam de mim

Oh, Pé de Anjo
Oh, Pé de Anjo
És rezador, és rezador
Tens um pé tão grande
Que és capaz de pisar Nosso Senhor
Nosso Senhor!

A mulher e a galinha
São dois bichos interesseiros
A galinha pelo milho
E a mulher pelo dinheiro.




FALA MEU LOURO (PAPAGAIO LOURO)


Selo de Fala Meu Louro
Arquivo Nirez

Samba de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Gravado por Francisco Alves
Acompanhamento do Grupo dos Africanos
Disco Popular Record 1.009, matriz 1009-3...
Gravado em outubro de 1919 e lançado em 1920


A Bahia não dá mais coco
Para botar na tapioca
Pra fazer um bom mingau
Para embrulhar o carioca.

Papagaio louro
Do bico dourado
Tu falavas tanto
Qual a razão que vives calado?

Não tenhas medo
Coco de respeito
Quem quer se fazer não pode
Quem é bom já nasce feito.




ALIVIA ESSES OLHOS

Selo de Alivia Esses Olhos
De Gilberto Inácio Gonçalves

Samba de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Gravado por Francisco Alves
Acompanhamento do Grupo dos Africanos
Disco Popular Record 1.010, matriz 1010-4...
Gravado em outubro de 1919 e lançado em 1920


Eu queria saber por que é
que este homem bateu na mulher
Que mulher engraçada e adorada
que se acostumou com a pancada!

Ai, como é bom querer!
Sofrer calado
Sem ninguém saber

Alivia esses olhos pra lá
que ainda ontem eu fui me rezar
Tenho medo desse olhar
que procura-me a vida atrasar.





Bônus
(Outras Gravações)



O PÉ DE ANJO

Selo de O Pé de Anjo
De Gilberto Inácio Gonçalves

Marcha Carnavalesca de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Gravada pelo Bloco do Fala Meu Louro
Disco Popular Record 1.000, matriz 1000
Gravado em outubro de 1919 e lançado em 1920




PAPAGAIO LOURO (FALA MEU LOURO)


Selo de Papagaio Louro
De Gilberto Inácio Gonçalves

Samba de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Gravado pelo Bloco do Fala Meu Louro
Disco Popular Record 1.001, matriz 1001-2
Gravado em outubro de 1919 e lançado em 1920




EU QUERIA SABER
Samba de Sinhô (José Barbosa da Silva)
Gravado por Francisco Alves
Acompanhamento da Orquestra Pan American
Disco Odeon 10.472-A, matriz 2.805
Lançado em outubro de 1929

  
Eu queria saber por que é
que este homem bateu na mulher
Que mulher engraçada e adorada
que se acostumou com a pancada!

Ai, como é bom querer!
Sofrer calado
Sem ninguém saber

Tanta gente que anda sofrendo
em virtude de uma paixão
Eu queria saber se eu tenho
um lugar em teu coração.













Agradecimento aos amigos Nirez (Miguel Ângelo de Azevedo), Gilberto Inácio Gonçalves e Adilson Santos.











quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

CARMEN MIRANDA - 90 ANOS DE SUAS PRIMEIRAS GRAVAÇÕES


CARMEN MIRANDA
Arquivo José Ramos Tinhorão
https://ernestonazareth150anos.com.br/


O mês de outubro de 2019 marcou os 90 anos da primeira gravação de CARMEN MIRANDA em discos, através do selo Brunswick. Antes de falar sobre o evento, vamos conhecer e/ou relembrar o início da carreira de nossa Pequena Notável.

Nascida no Porto (Portugal), em 02 de fevereiro de 1909, Maria do Carmo Miranda da Cunha veio morar no Brasil com sua mãe e a irmã mais velha, Olinda, quando tinha por volta de um ano de idade. Seu pai já se encontrava aqui, esperando-as.

Adolescente, começou a trabalhar em lojas de modas, atraindo atenção devido sua simpatia e voz agradável, pois gostava de cantar para as colegas e clientes.

Ao ser apresentada ao violonista e compositor baiano Josué de Barros, este logo se interessou em ajudar artisticamente a jovem que cantava suas músicas com uma graça especial, inclusive imitando a estrela Aracy Côrtes na composição Chora Violão.

Em 07 de janeiro de 1929, Carmen Miranda participava de um evento em homenagem ao compositor Ernesto Nazareth, que foi organizado pelo deputado Aníbal Machado, realizado no Instituto Nacional de Música. Uma rara foto, publicada pela revista O Violão (edição de fevereiro de 1929), mostra os participantes do evento, como o homenageado Ernesto Nazareth, o cantor Breno Ferreira, Josué de Barros e seu filho Betinho, Aníbal Machado, e ainda Mário Cunha, então namorado de Carmen. A própria Carmen Miranda aparece na foto, ao lado de Aurora Miranda, sua irmã, e do irmão Oscar Miranda. Somente Ernesto Nazareth foi creditado na fotografia.

Porém, esse não foi a primeira aparição de Carmen Miranda como cantora. Em 1928, às 20:30 do dia 28 de agosto (uma terça-feira), no mesmo Instituto Nacional de Música, ela se apresentava cantando tangos argentinos, em benefício do Orfanato do Sagrado Coração de Jesus. Provavelmente ela foi levada ao evento por Josué de Barros.


A Esquerda, 27 de agosto de 1928
http://memoria.bn.br/

Em seu início de carreira, Carmen Miranda gostava muito de interpretar tangos; ela chegaria a gravar dois pela Victor.

Em 30 de março de 1929, Carmen Miranda faria (talvez) sua primeira viagem artística fora da cidade do Rio de Janeiro, apresentando-se em Petrópolis, no Palace Hotel, em uma audição de violão e canções regionais.


Correio da Manhã, 21 de março de 1929
(imagem editada)
http://memoria.bn.br/


Diário Carioca, 21 de março de 1929
http://memoria.bn.br/


Carmen Miranda começou a aparecer na programação radiofônica em 1929, em rádios como a Rádio Educadora do Brasil, Rádio Sociedade e Rádio Mayrink Veiga. Essas participações, aliadas aos eventos onde tomava parte, ajudavam-na a adquirir experiência perante o público e segurança como cantora. Para seu padrinho artístico, Josué, o próximo passo seria gravar um disco, o que ajudaria a divulgar mais ainda a carreira da jovem artista.


Correio da Manhã, 05 de março de 1929
(imagem editada)
http://memoria.bn.br/


Correio da Manhã, 10 de março de 1929
(imagem editada)
http://memoria.bn.br/


Correio da Manhã, 22 de outubro de 1929
(imagem editada)
http://memoria.bn.br/


Correio da Manhã, 13 de dezembro de 1929
(imagem editada)
http://memoria.bn.br/


A gravadora escolhida foi a Brunswick, cuja filiar fora recém-inaugurada no Brasil. Em setembro de 1929, Carmen Miranda gravava seu primeiro disco com músicas da autoria de Josué de Barros, trazendo no lado A o choro Se o Samba é Moda, e no lado B, o samba Não Vá Simbora. Mas o disco só seria lançado em dezembro de 1929 (como suplemento para janeiro de 1930) e essa demora desagradou a Josué, que levou Carmen para um teste na gravadora Victor (que também iniciou suas instalações no Brasil em 1929). Na Victor, ela gravaria duas músicas ainda em dezembro de 1929, mas isso é assunto para outra postagem.

Abel Cardoso Júnior, saudoso pesquisador e biógrafo de Carmen Miranda, informava que a revista Cruzeiro (15 de março de 1930, p. 39) dava o registro do disco, porém, sem o nome da cantora. Ele ainda informava que o Trio Barros, que acompanhou Carmen na gravação, deveria variar bastante, pois, em março de 1929 "era composto de Josué de Barros, Edmundo Barroso e Francisco Serra. Dias depois, apresentava-se com Manoel Controva no lugar de Edmundo Barroso". 

O pesquisador ainda informa, em seu livro Carmen Miranda - A Cantora do Brasil, uma passagem pitoresca, retirada da Gazeta do Rádio, segunda quinzena de agosto de 1955, p. 02: "Quando do primeiro disco que gravou, isso na gravadora Brunswick, Carmen entrou em contato com o diretor da mesma, um senhor gordo e de nacionalidade alemã. Ao 'topar' com o volumoso corpo do germânico e sua enorme barriga, Carmen, sempre brincalhona, batendo na cintura do diretor, falou:

- Chopp, não é?"



Phono-Arte, 15 de janeiro de 1930, nº 35, p. 26.
Arquivo Nirez


Correio da Manhã, 09 de fevereiro de 1930.
Obs. Nesse dia, Carmen Miranda completava 21 anos de idade.
http://memoria.bn.br/


Excelsior, fevereiro de 1930, nº 25.
http://memoria.bn.br/






O primeiro disco de Carmen Miranda é hoje um raro artigo de colecionador. Tão difícil de se encontrar que, recentemente, vi um anúncio na internet onde um vendedor o oferecia pelo valor de um milhão de reais... Isso mesmo! Mas, raridade a parte, ele também é importante pela simbologia que o envolve. Foi o primeiro disco de uma fascinante artista, uma cantora que iria revolucionar a forma de interpretação feminina dos anos 30. Uma personalidade que, meses depois dessa gravação, se tornaria em um fenômeno no meio musical, graças a seu talento e carisma. Carmen Miranda já estava pronta como cantora em setembro de 1929, só precisava da oportunidade para mostrar a que veio. E isso, a Victor lhe concederia nas centenas de discos e sucessos que ela lançaria nos anos seguintes.



Carmen Miranda, 1930
http://memoria.bn.br




Eventos de Carmen Miranda 


 Theatro Lyrico

Correio da Manhã, 06 de março de 1929
http://memoria.bn.br/


Clube de Regatas Botafogo

Diário Carioca, 14 de novembro de 1929
http://memoria.bn.br/



Primeiras Gravações de Carmen Miranda





SE O SAMBA É MODA
Choro de Josué de Barros
Gravado por Carmen Miranda
Acompanhamento do Trio Barros
Disco Brunswick 10.013-A, matriz 97
Lançado em janeiro de 1930




O samba era original dança dos pobres
E no entanto, hoje, vive nos salões mais nobres

Se o samba é moda, vamos sambar (ui)
Entre na roda e deixe o mundo se acabar

Até na corte, o ? é majestade
Vai um sambinha e quebra mesmo de verdade.



NÃO VÁ SIMBORA
Samba de Josué de Barros
Gravado por Carmen Miranda
Acompanhamento do Trio Barros
Disco Brunswick 10.013-B, matriz 99
Lançado em janeiro de 1930




Se você vai ficá, eu fico
Se você vai sim´bora, eu vô
Se você vai com água no bico
o culpado é você, amô

Não vá sim´bora, nóis não deve assepará
A coisa tá memo boa, inté faz pena se acabá

Você gosta de mim, meu bem
Não me negue o que eu lhe pedi
Pois assim faz quem amô tem
Eu só peço é p´ra não partir

Não se deve brincá cum amô
quando nasce no coração
Não há nada pió que a dô
di uma cruel separação.














Agradecimento ao Arquivo Nirez
Abel Cardoso Júnior (In memoriam)










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