sábado, 12 de setembro de 2020

ZAÍRA CAVALCANTI - UMA ESTRELA BRASILEIRA

ZAÍRA CAVALCANTI, aos 16 anos
"Á sympathica Phono-Arte, com carinhosa admiração
offerece, Zaíra Cavalcanti
1-8-30"
Arquivo Nirez



A noite de 24 de janeiro de 1930, trazia o Theatro Recreio repleto de pessoas que acorreram ao famoso teatro da rua do Espírito Santo, situado nas proximidades da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, para conferir a nova revista dos infatigáveis e vitoriosos azes Marques Porto e Luiz Peixoto.

Quando chegou ao 15º quadro do primeiro ato da peça, o maestro argentino Júlio Cristóbal ergueu a batuta e a Orquestra do teatro começou a tocar uma marchinha que ainda era inédita para a maioria do público. À melodia contagiante da introdução, surgiu no palco uma mocinha de dezesseis anos. Ela vestia calça compridas e blusa branca, lenço vermelho na cintura, chapéu de abas largas e leque (a cor vermelha do lenço era símbolo da Aliança Liberal, que significava oposição. Getúlio Vargas havia lançado, há poucos dias, sua plataforma política, em um comício para dez mil pessoas. Os autores da revista não eram oposicionistas, mas, a maioria da classe média que assistia a peça o era.).

Brejeira e com um jeitinho menineiro (segundo o crítico Jotaefegê), começou a cantar, "Essa mulher há muito tempo me provoca"; as coristas, dançando ao ritmo da música cantavam o refrão: "Dá nela! Dá nela!". A garota continuava, "É perigosa, fala mais que pata choca", e as coristas, sentindo a boa recepção por parte do público, diziam, empolgadas, “Dá nela! Dá nela!"

Na segunda parte da música, já não era só a garota e as girls que cantavam a música contagiante, todo o teatro acompanhava entusiasmado: "Fala, língua de trapo; Pois da tua boca eu não escapo!".
Ao findar a apresentação, o público não as deixou sair de cena, fazendo com que o número se repetisse por três vezes.

Dessa forma, nascia uma nova estrela no teatro musical brasileiro: Zaíra Cavalcanti.


Zaíra Baltazar Cavalcanti nasceu em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 01 de outubro de 1913. Seus pais eram Conceição Baltazar e Otávio (ou Otaviano) Cavalcanti. 

Obs. Nosso amigo e pesquisador Dijalma Candido fez descobertas sobre o nascimento e morte de Zaíra Cavalcanti e algumas datas estavam diferentes. Em breve, com mais consultas, iremos falar sobre o assunto.


Ela foi descoberta em Porto Alegre pelo ator e empresário Mário Ulles (ou Hulles), que a convidou para ir ao Rio de Janeiro. Porém, antes de embarcarem, ele a testou no Teatro Guarany, dessa cidade. Ela cantou Luar do Sertão, agradando em cheio e o convite foi confirmado. No Rio, ela estreou como cantora no Alcazar (a segunda casa de espetáculos com esse nome), na Rua do Passeio. Na época, havia uma companhia se apresentando no local, tendo como principais atores, o célebre Alfredo Silva e Juvenal Fontes (Jéca Tatu). Zaíra foi anunciada, solenemente, pelo compositor, empresário e cabaretier De Chocolat, que a apresentou como a "nova estrela que o Rio iria conhecer".

Depois viajou para Santos, com a Companhia Arruda, fazendo parte do elenco da revista Manda-chuva de Lampeão. De volta ao Rio, sem ter vaidades de estrela, foi ser corista da Companhia Tró-ló-ló, no Teatro Glória, na Cinelândia; indo depois para o Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes.

Isso se deu entre fins de 1928 e meados de 1929 e ela tinha quinze anos. Porém, em 1927, vamos encontrar a jovem atriz como uma das protagonistas do filme Flôr do Pântano, da Artistas Unidos do Brasil. O filme, que teve alguns problemas em sua produção, não foi concluído.



Zaíra Cavalcanti e Sylvio Rollando 
em Flor do Pantano, 
da A.U.B.



Zaíra Cavalcanti e Francisco Oliveira
em Flor do Pantano,
da A.U.B.



Em 13 de dezembro de 1929, após voltar de uma bem sucedida temporada na Bahia, e cheia de folego e graça, Zaíra Cavalcanti estreou no célebre Theatro Recreio na revista Pátria Amada, que viria a ser a segunda maior bilheteria daquele ano. Júlio Cristóbal, Ary Barroso e Augusto Vasseur eram os responsáveis pelas músicas. Segundo Salvyano Cavalcanti de Paiva, a peça era vazada em estilo cinematográfico, mudando de ambiente a todo instante, num ritmo veloz e bem cadenciado. O elenco era formado por Aracy Côrtes, Mesquitinha, Palitos, J. Figueiredo, Olga Navarro, Elza Gomes, juntando-se a essa turma talentosa estava a adolescente Zaíra. 

O crítico Mário Nunes notou que Zaíra "sublinhava tudo com meneios quentes", que na década seguinte ela iria explorar com mais desembaraço e propriedade. Essa peça trazia, também, a estrela de nosso cinema, Lelita Rosa. Todo o público riu e aplaudiu a revista, cantarolando durante os dois atos e quarenta quadros. Foi considerada pelo matutino Correio da Manhã como maliciosa, feliz na variedade dos quadros, caprichosa na montagem. Em sua cenografia, a peça introduzia uma novidade: uma galeria de cristal, uma imitação genuína do que mostravam os filmes.


Dá Nela!

Em 1929, a Casa Edison, que nessa época produzia os discos Odeon, anunciou a realização de um concurso para a escolha dos sambas e marchas que gravaria para o carnaval de 1930. O prazo de entrega das composições se encerrava em 31 de dezembro de 1929. Ary Barroso não mostrou interesse, mas, seu amigo e diretor de gravações da Casa Edison, o maestro e compositor Eduardo Souto, o animou a participar. Mesmo assim, Ary só entregou sua música no dia do encerramento do prazo de inscrições e na hora final, às cinco da tarde. Para atender a insistência de seu amigo, o compositor mineiro levou a marcha Da Nela!... .

Com um júri formado por Aracy Côrtes, Oswaldo Santiago e Assis Pacheco, a marcha de Ary ficou entre as cinco finalistas. O julgamento público aconteceu em um sábado, 18 de janeiro de 1930, no Teatro Lírico, sendo interpretada por Francisco Alves, com acompanhamento da Orquestra Pan American, de Simon Bountman. À entrada do teatro, o público recebia uma cédula para declarar qual a música de seu maior agrado. Quem ganhou o primeiro lugar foi Dá Nela!....

Curiosidade: os autores das músicas apareciam sob pseudônimos nas cédulas. O de Ary Barroso era Aba.

A empresa A. Neves & Cia, assessorada por Marques Porto e Luiz Peixoto, que assinavam quase todas as peças da companhia, sempre com sucessos de público e, como consequência, bilheteria, escreveram a revista A Melhor de Três, porém, dois dias antes da première (que seria em 24 de janeiro), o nome da peça aparecia nos jornais e na fachada do teatro com o novo título: Dá Nela!... .

No elenco, nomes de peso: Aracy Côrtes, Mesquitinha, J. Figueredo, Olga Navarro, Elsa Gomes, Palitos, Luísa Fonseca, Isabelita Ruiz, Tina de Jarque, Oscar Cardona...

Quando a jovem Zaíra, de apenas dezesseis anos, surgiu ao palco com as coristas, cantando a marchinha, o público a consagrou como grande estrela.

A marcha, mesmo sendo o primeiro lugar no concurso promovido pela Casa Edison, não foi reivindicada pela estrela da companhia, Aracy Côrtes, ficando para a atriz gaúcha. Aracy laçaria outro clássico nessa revista: Na Pavuna, trazendo pela primeira vez instrumentos de percussão. Mas, isso é uma história futura...

Para o crítico Lafayette Silva, ela era "a mais séria ameaça do teatro popular", e seria um enorme sucesso, pois, "bisou e trisou seus números".

Os personagens interpretados por Zaíra eram: Colombina da Fuzarca, Desiludida, Dá Nela, Baiana e Fenianos.




Cartaz de Dá Nella! no dia de sua estréia, em 24/01/1930, no Jornal do Brasil.
A atriz Aracy Côrtes aparece como chamariz, devido ao seu prestígio.




Zaíra Cavalcanti em Dá Nela, 1930.
"Zaíra Cavalcanti, a morena que actualmente faz tanto successo no Recreio,
quando creou a popularissima marcha 'Dá Nella'.
Zaíra é, hoje, um dos maiores encantos do theatro popular".
Crítica, abril de 1930, p.06






Zaíra (ao centro) e as girls (coristas) no quadro Colombina da Fuzarca.
Peça Dá Nela!,  janeiro de 1930.



Partitura de Dá Nela!
Arquivo Nirez


A marcha de Ary Barroso, Dá Nela!... , foi gravada em disco por Francisco Alves.

O periódico O Malho, publicou uma foto de Francisco Alves e a Orchestra Pan American no palco, quando apresentavam a música de Ary Barroso. Abaixo, vemos a plateia que a elegeu primeiro lugar.



O Malho, 01 de fevereiro de 1930





O Malho, 01 de fevereiro de 1930 (detalhe)



Pouco tempo depois de seu triunfo, Zaíra Cavalcanti foi convidada a gravar um disco na gravadora Parlophon, que era subsidiária da Odeon. 

De Osvaldo Santiago e Eduardo Souto, ela gravou o samba Pedaço de Mau Caminho; no lado B, gravou o samba de José Luís da Costa (Zé Pretinho), Gongá

O acompanhamento ficou a cargo da Simão Nacional Orchestra, dirigida por Simon Bountman.

Novas peças foram surgindo, confirmando e firmando o prestígio da jovem estrela. As excursões pelo país e exterior a fariam levar sua arte para a Argentina e Chile, sendo uma das primeiras artistas brasileiras a se apresentar nesse último país.




O artigo Continua...





Agradecimento a Dijalma Candido e ao Arquivo Nirez





Um comentário:

  1. Que postagem primorosa, amei ler sobre a vida e obra de Zaíra Cavalcanti.

    Parabéns

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