sexta-feira, 25 de outubro de 2019

AS LARANJAS DA SABINA - 1889

Um dos episódios mais interessantes que o Rio de Janeiro já presenciou e viveu foi, sem dúvida, o caso da Sabina das Laranjas.

Corria o ano de 1889, a monarquia estava quase chegando ao fim e os ânimos republicanos se renovavam e se fortaleciam a cada dia.

Uma classe que aderia ferrenhamente à causa republicana era a dos estudantes, entre eles, os de Medicina. A Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro ficava ao lado da Santa Casa de Misericórdia, na rua Santa Luzia. Como em toda faculdade, até os dias de hoje, os alunos escolhem um “point” para se reunir e trocar ideias, fazendo do local uma atração entre eles.

No final do século XIX o local escolhido pelos estudantes de Medicina era o tabuleiro da ex-escrava Sabina, que há anos vendia suas laranjas para uma freguesia cativa. Sabina era querida e popular entre os estudantes, que lotavam o entorno do tabuleiro.

As quitandeiras vendiam suas comidas pelas ruas das cidades desde os tempos da Colônia, sendo muitas vezes perseguidas pelas autoridades, que viam nessas mulheres potenciais contraventoras e perturbadoras da ordem pública. Com o tempo, a perseguição foi diminuindo, mas não se extinguindo. Elas vendiam suas quitandas para um público fiel, reunindo nessa prática uma rica variedade de culturas, sejam ligadas à alimentação, à sua vestimenta, ao modo de apregoar seus produtos, ao seu linguajar... Elas seriam, tempos depois, cantadas em versos e popularizadas no teatro musical ou nas canções dos discos e no rádio. Mas no século XIX, a realidade era bem distante dessa ficção dourada que os poetas criariam tempos depois.


Foto de Alberto Henschel, 1870
Biblioteca Nacional


Foto de Christiano Junior, 1865
Biblioteca Nacional


Foto de Marc Ferrez, 1975
Biblioteca Nacional


Quitandeiras
Foto de Marc Ferrez, 1875
Instituto Moreira Salles

Um dia de julho de 1889 os estudantes vaiaram a passagem pelo local da carruagem de um ministro do Império. O caso não podia ser deixado de lado, mas seria tarefa muito difícil para o Chefe de Polícia Imperial, dr. José Basson de Miranda Osório, punir todos os estudantes. Então, ele tomou a seguinte decisão: confiscou o tabuleiro de Sabina, por considerar um local de subversão, deixando a pobre vendedora sem poder garantir seu sustento.

Indignados, os estudantes organizaram uma passeata em favor de Sabina. Na manhã de 25 de julho de 1889, cerca de trezentas pessoas saíram em cortejo as Faculdade de Medicina, percorrendo as ruas do centro do Rio de Janeiro. À frente, ia Sabina com suas roupas de baiana. A passeata ganhava adeptos por onde passava e foi marcada por uma característica: era pacífica. Os estudantes protestavam através do riso e das coroas e estandartes de frutas e legumes. Outro fato marcou aquele dia, todos traziam espetados em suas bengalas... laranjas! Em faixas, se liam: “Ao subdelegado do 1º distrito da freguesia de S. José oferece a Escola de Medicina; e em outra: Ao eliminador das laranjas”.


“A Manifestação das Laranjas
A grande troça, a grande e unica troça da semana, foi, sem duvida, a que nos forneceu a mocidade da Escola de Medicina, com a manifestação a laranjas ao Sr. activo e zeloso subdelegado de S. José, bradando com todo o enthusiasmo: - Viva o subdelegado da freguezia! Viva a freguesia do subdelegado!”
Revista Illustrada, 27 de julho de 1889, p. 05.


O Paiz, 26 de julho de 1889, p. 01.
http://memoria.bn.br


Revista Illustrada, 27 de julho de 1889, p. 015.


A passeata teve como atração, alguns músicos, entre eles, o homem dos sete instrumentos. Na Rua do Ouvidor, os estudantes pararam em frente a redação dos principais jornais, que cobriram o fato dando destaque no dia seguinte.

O povo sorria e aplaudia os manifestantes, senhoras acenavam com seus lenços do alto de suas varandas. Dessa forma, eles retornaram à Faculdade de Medicina. Antes, porém, despejaram todas as coroas de legumes e laranjas na casa do Chefe de Polícia. O dinheiro arrecadado na passeata foi dado à vendedora de laranjas.

O acontecimento foi um sucesso, caindo na boca do povo, que se mostrou favorável à cauda de Sabina. A repercussão do caso, ao que consta, resultou no afastamento do Chefe de Polícia, a volta do tabuleiro de Sabina e sua consagração no imaginário popular e no teatro.

Por essa época, o Teatro de Revista já havia se consolidado no Brasil e era um dos principais meios de divulgação de nossa música, retratando causos e costumes da população. O caso da Sabina das Laranjas não poderia ficar de fora dos palcos. Coube a Arthur Azevedo compor o lundu As Laranjas da Sabina e incluí-lo na revista A República, escrita por ele e seu irmão, o escritor Aluísio de Azevedo.



http://memoria.bn.br

Estreada em 26 de março de 1890 no Theatro Variedades Dramáticas, A República foi, segundo Salvyano Cavalcanti de Paiva, “um dos raros sucessos do gênero naquele ano”. Era uma peça com um prólogo e três atos divididos em 13 quadros. A regência ficou a cargo do maestro Adolfo Lidner que “compilou e regeu uma partitura que incluía músicas” dele próprio nomes de peso como Francisco Braga e Carlos Gomes, porém, de todas as composições só algumas tiveram êxito: “algumas modinhas cantadas pelo cômico e compositor Xisto Bahia; a execução de trechos de Lo Schiavo, com o ator José Gonçalves Leonardo encarnando o maestro Antonio Carlos Gomes”(seu autor) e um tango que, segundo Salvyano, “se constituiu no maior sucesso popular de música divulgada pelo teatro no fim do século XIX”.  A peça trazia no elenco Clélia de Araújo interpretando a Monarquia,  Rose Villiot interpretando a República e Felipe Martins, interpretando o Brasil.



CLÉLIA DE ARAÚJO
Arquivo Marcelo Bonavides


ROSE VILLIOT
Arquivo Marcelo Bonavides


Cartaz da revista A República.
O Paiz, 26 de março de 1890, p. 04.
http://memoria.bn.br

Esse tango, ou lundu, era justamente As Laranjas da Sabina, que foi cantado pela atriz Ana Manarezzi, que vestida de baiana, vivia a Sabina nos palcos. Ana Manarezzi (nascida na Grécia e morando no Brasil desde os dois anos de idade) foi a segunda atriz a se vestir de baiana no Teatro de Revista (a primeira foi a carioca Aurélia Delorme).



ANA MANAREZZI
Arquivo Marcelo Bonavides


Ana Manarezzi vestida de Baiana.
Livro O Rio de Janeiro do meu tempo, de Luiz Edmundo.
Arquivo Marcelo Bonavides


A letra de As Laranjas da Sabia é bem interessante, fazendo alusão ao caso e também fazendo troça com uma mania do Imperador D. Pedro II: que gostava de tomar canja de galinha no intervalo de peças teatrais.

Eis a letra original:

Sou a Sabina, sou encontrada
todos os dias lá na calçada
lá na calçada da Academia
da Academia de Medicina
Um senhor subdelegado
moço muito rezingueiro
Ai, mandou, por dois soldados
retirar meu tabuleiro, ai...

Sem banana macaco se arranja
Mas não passa o Monarca sem canja
Mas estudante de medicina
nunca pode
passar sem a laranja,
a laranja,
a laranja da Sabina.

Os rapazes arranjaram
uma grande passeata
Deste modo provaram
como o ridículo mata.


O sucesso do lundu fez com que ele fosse gravado em cilindros e discos a partir de 1902, confirmando sua popularidade. Bahiano e Cadete foram seus primeiros intérpretes no começo do século XX. Em 1906, a atriz-cantora Pepa Delgado gravou As Laranjas da Sabina, porém, com algumas modificações na letra. Como já estávamos na República, não havia sentido mencionar o Imperador, por isso, as modificações foram:

“Sem banana macaco se arranja
Mas não passa a mulata sem canja

Os rapazes arranjaram
uma grande passeata
Deste modo provaram como gostam da mulata”.



PEPA DELGADO
Caracterizada como Baiana.
Arquivo Marcelo Bonavides

Por volta de 1907, a dupla Os Geraldos (Geraldo Magalhães e Nina Teixeira) gravou a música Rapsódia, onde cantavam trechos de músicas de sucesso da época. Nina Teixeira cantou uma parte do refrão de As Laranjas da Sabina.



NINA TEIXEIRA
Caracterizada de Baiana.
O Malho, 1909.
http://memoria.bn.br

Na década de 1940, a cantora Dircinha Batista cantou no rádio uma versão de As Laranjas da Sabina, sendo apresentada por Almirante, com arranjo feito por Pixinguinha, que a acompanhou com a Orquestra do Pessoal da Velha Guarda. Nessa versão, Dircinha Batista canta a letra original. O título ficou Fadinho da Sabina e foi gravado em disco não comercial.



DIRCINHA BATISTA
Arquivo Nirez

Em 1999, a cantora Maricene Costa faria uma gravação de As Laranjas da Sabina, acompanhada de regional, no Cd Como Tem Passado.



MARICENE COSTA
https://www.marciopinho.com.br



Trago a versão gravada por Pepa Delgado e o trecho cantado por Nina Teixeira. Também deixo o link para vocês ouvirem a gravação de Dircinha Batista.




AS LARANJAS DA SABINA
Lundu de Arthur Azevedo
Gravado por Pepa Delgado
Disco Odeon Record 40.350

Lançado em 1906
Obs. Da revista A República, de Arthur e Aluísio de Azevedo.



Trecho de As Laranjas da Sabina, cantado por Nina Teixeira.
Disco Odeon Record 70.042
Lançado em 1907



FADINHO DA SABINA
Lundu de Arthur Azevedo, com arranjo de Pixinguinha

Cantado por Dircinha Batista
Acompanhamento da Orquestra do Pessoal da Velha Guarda



AS LARANJAS DA SABINA
Por Maricene Costa












Agradecimento a Humberto Franceschi (in memoriam) e ao Arquivo Nirez 
Fontes:
Jornal O PAIZ, Rio de Janeiro, 26 de Julho de 1889
Monografia Nossas Atrizes-cantoras: de 1859 a 1926, de Marcelo Bonavides de Castro, 2009.
Livro Viva o Rebolado, de Salvyano Cavalcanti de Paiva, 1991.












6 comentários:

  1. Muito bom o texto.
    Parabéns pelo seu blog.Leio todos os dias e nunca canso.

    Se possível visite meu blog e diga o que achou.

    http://sabordaletra.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  2. Adorei, baby!
    Texto muito bom!

    beijosss

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  3. Estou sentindo sua falta aqui!

    Abraços

    http://sabordaletra.blogspot.com/

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  4. E o que houve da Sabina? Voltou a vender laranjas em outro lugar?

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  5. Junior, já li que ela teve de volta seu tabuleiro e recebeu uma ajuda dos manifestantes.
    Mas, vou procurar mais informação.
    Abraços!

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