Que o samba tem reis e
rainhas, isso nós sabemos.
Mas, poucos sabem que ele também teve princesa. Uma princesinha,
aliás.
Chamava-se Marília Batista (ou Baptista, no original).
Há 23 anos, em 08 de
julho de 1990, ela falecia, diminuindo ainda mais a presença dos grandes intérpretes
da Era de Ouro de nossa música popular.
Ela é lembrada por ter
sido uma das melhores intérpretes do compositor Noel Rosa (a outra grande:
Aracy De Almeida). Até criou-se uma disputa entre os fãs e críticos para saber
quem era a melhor intérprete de Noel. Em minha opinião, ambas foram Grandes
nesse sentido, e em muitos outros.
Marília Monteiro de
Barros Baptista nasceu no Rio de Janeiro em 13 de abril de 1918.
Seu pai, Renato Hugo
Baptista, era médico do Exército; sua mãe, Edith Monteiro de Barros Baptista,
era pianista. Marília tinha dois irmãos, Renato e Henrique, que também eram
compositores.
Desde menina, essa
herdeira de uma tradicional família carioca, neta do poeta e Barão Luís
Monteiro de Barros, já manifestava seu interesse pela música.
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Infância. Com quatro anos. |
Em uma ida à sua casa,
para cortar os cabelos de seu pai e irmãos, o barbeiro da família esqueceu seu
violão. Ela, então com seis anos, não largou mais o objeto, “ganhando”, dessa
forma, seu primeiro instrumento musical. O violão, instrumento que seria uma de
suas grandes paixões, até ganhou versos da precoce criança:
Fala tudo que meu
peito sente
Pois, meu amigo verdadeiro
nem brincando você mente.
Começou a compor com
oito anos. Depois, foi estudar no Instituto Nacional de Música (atual Escola de
Música da UFRJ), onde se formou em teoria, solfejo e harmonia, mesmo tendo
abandonado o curso de piano no quarto semestre.
Aos doze anos, começou a
estudar violão com o compositor Josué de Barros, por iniciativa do próprio
Josué. Ele parecia pressentir quem tinha talento, pois, ao ver um recital de
Marília no Cassino Beira-Mar, ficou tão encantado que passou a lhe ministrar
aulas de graça. Lembrando que foi Josué quem mais tarde
descobriria o talento de Carmen Miranda.
Marília ainda estudou
violão clássico com o virtuoso José Rebelo, pois tinha a intenção de se tornar
uma concertista. Mas, seu interesse pela música popular era mais forte.
Em 1931, em uma festa na
casa da cantora Elisinha Coelho, conheceu os seguintes artistas: o Maestro
Hekel Tavares, o compositor Luís Peixoto, e ainda, Almirante e o Bando de
Tangarás.
Segundo o Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira, ela conheceu o compositor Noel Rosa em 1932, quando foi convidada a cantar no espetáculo Uma Hora de Arte, no Grêmio Esportivo Onze de Julho; ela tinha quatorze anos. Mas, como Noel integrava o Bando de Tangarás, é possível que eles tenham se conhecido na festa de Elisinha, no ano anterior, data que marcaria o final do Bando.
Segundo o Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira, ela conheceu o compositor Noel Rosa em 1932, quando foi convidada a cantar no espetáculo Uma Hora de Arte, no Grêmio Esportivo Onze de Julho; ela tinha quatorze anos. Mas, como Noel integrava o Bando de Tangarás, é possível que eles tenham se conhecido na festa de Elisinha, no ano anterior, data que marcaria o final do Bando.
A menos que o
compositor de Vila Isabel tenha faltado.
O fato é que, sendo em
1931 ou 1932, Marília e Noel tornaram-se grandes amigos.
Ainda em 1932, ela
gravaria seu primeiro disco na Victor. O lado A trazia a marcha de sua autoria,
em parceria com seu irmão Henrique, Me Larga; no lado B, o samba, também da
autoria de ambos, Pedi, Implorei. O acompanhamento ficou a cargo de Rogério
Guimarães, ao violão, e João Martins, ao bandolim.
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Os irmãos Baptista, Marília e Henrique. |
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Revista Vida Doméstica, agosto de 1935. |
Por ocasião do oitavo
Broadway Cocktail (show que precedia o filme exibido no Cine Bradway, no Rio de
Janeiro), ela foi convidada por Almirante para cantar ao lado de grandes nomes
da época: Sílvio Caldas, Jorge Fernandes e Rogério Guimarães (que era
instrumentista). O sucesso foi tanto que ela recebeu convite de Ademar Casé
(avô da atriz Regina Casé e um dos pioneiros do rádio brasileiro) para fazer
parte do Programa Casé, na Rádio Phillips, com um contrato considerado
altíssimo na época: 45 mil réis.
Foi no Programa Casé, pioneiro dos programas
de auditório, que ela e Noel Rosa (que também era contratado) fizeram célebres
improvisos com o samba De Babado, da autoria de Noel e João Mina. As
improvisações chegavam a durar até dez (!) minutos, sem repetições nos versos
por parte dos dois. Lembrando que os versos eram criados na hora.
Noel Rosa criou um
prefixo para a participação de Marília Batista no Programa Casé, citando a voz
característica da garota:
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Marília ao microfone e Noel Rosa à direita. Atrás dela, o irmão Henrique Batista. |
Fala o Programa Casé!
Veja se adivinha quem é...
Faço a pergunta por troça
pois todo mundo já conhece
A garota da voz
grossa.
Ainda nesse programa,
ela lançaria o samba de Noel, Pela Décima Vez, em 1935, que seria gravado pela
primeira vez em 1947 (dez anos após a morte de Noel), por Aracy de Almeida.
Curiosidade: um de seus
passatempos favoritos era tricotar. Ela praticava tricô nos intervalos dos programas
em que participava.
O último disco gravado
por Noel Rosa, no qual Marília também participou, trazia os sambas: Quem Ri Melhor, de
Noel; e Quantos Beijos, de Noel e Vadico. Ambos foram acompanhados pela
orquestra de Pixinguinha, tendo no coro Cyro monteiro, Odete Amaral, Almirante
e as pastoras e ritmistas da Mangueira, puxados por ninguém menos que Cartola.
Ou seja, um encontro de Grandes!
Quando Noel Rosa
faleceu, em , D. Martha, mãe do compositor, deu à Marília Batista os
manuscritos do filho. Marília entregou-os a Almirante, que também era
pesquisador musical, e que os conservou com muito cuidado. Após o enterro de
Noel, ela compôs com seu irmão Henrique o samba Não há mais samba na terra, e o
cantou na mesma noite na Rádio Educadora.
Foi nessa época que
Marília Batista recebeu o título de Princesinha do Samba.
Ela integrou o elenco da
Rádio Nacional desde o dia de sua inauguração, em 12 de setembro de 1936. Nessa
emissora, passou a integrar o grupo vocal As Três Marias (inicialmente formado
por ela, Bidu Reis e Salomé Cotelli), que acompanhava os intérpretes da rádio.
Ainda atuou na Rádio Cajuti, Cruzeiro do Sul e Transmissora, onde apresentou o
programa Samba e outras coisas.
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1938 |
Aos 20 anos, em 1938, viajou para o Uruguai, fazendo oito apresentações em rádios diferentes. Em 1940, gravou o samba de Noel Rosa Silêncio de um minuto.
Em parceria com o irmão
Henrique Batista, compôs o samba Grande Prêmio, gravado por Linda Batista em
1943, na Victor.
Em 1944, após gravar os
sambas Liberdade (de Pereira Matos e Manoel Vieira) e Salão Azul (de sua
autoria e seu irmão Henrique), afastou-se da carreira artística, época em que
se casou.
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As Três Marias. Da esquerda para direita: Marília Batista (fazendo o V da Vitória, Bidu reis e Salomé Cotelli). Revista A Noite Illustrada, 1942. |
Na década de 1950,
Marília retornou à sua carreira de cantora e compositora. Teve músicas de sua
autoria gravadas por Elizeth Cardoso (Praça Sete, samba-canção em parceria com Sebastião Fonseca, que fez sucesso); e, novamente em parceria com o irmão
Henrique Batista, gravou os sambas Lamento e Tamborim batendo.
Nessa década ainda
gravou músicas de Noel Rosa, inclusive algumas inéditas. Em 1954, ela lançaria
um LP só com composições do Poeta da Vila.
Nos anos 60, Marília
Batista se revezaria no rádio e na TV. Em 1965, participou, ao lado de Aracy de
Almeida, Dircinha Batista, Cyro Monteiro e outros, do show de despedida de
Sílvio caldas (que, felizmente, ainda viria a fazer outros shows de despedida,
até perto de sua morte, em 1998), no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro.
Em 1988, aos 70 anos,
participou do projeto Concerto ao meio dia, no Teatro João Teotônio (uma
entrevista musical conduzida pelo pesquisador Ricardo Cravo Albin), onde chegou
a ir às lágrimas com os aplausos recebidos pela plateia que superlotava o
teatro.
Mais uma curiosidade:
Marília Batista voltou a estudar na década de 1960, formando-se em Direito.
Sem dúvida, Marília
Batista foi (e é) uma de nossas maiores intérpretes e compositora de talento.
Lembro muito bem do dia
em que ela faleceu, 09 de julho de 1990, da notícia divulgada pela televisão,
da entrevista de sua filha, afirmando que a mãe estava preparando uma
autobiografia (será que foi lançada?). Tenho essa gravação em algum lugar.
O curioso é que ela
nasceu no mesmo ano que meu avô materno (1918), e faleceu no mesmo dia e mês
que ele (09 de julho), porém, ele em 1983 e ela em 1990.
Hoje, sei que o bom
samba continua... lá no Céu.
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Revista Carioca, 1936. |
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1937 |
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Marilia Baptista, interessante figura do "briadcasting" carioca, em suggestivo estudo de Julien Mandel. Revista Carioca, 1936. |
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