quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

HELENA PINTO DE CARVALHO - 81 ANOS DE SAUDADE

HELENA PINTO DE CARVALHO
Arquivo Nirez



Ao longo dos anos, em minhas pesquisas musicais, aprendi a admirar e até a querer bem a alguns nomes de nossa música popular. Sei que todos os que fizeram nossa história musical merecem nosso respeito e devem ser relembrados, mas alguns deles nos cativam de modo pessoal. O porquê disso nem sempre importa, pois o que realmente conta é o sentimento, a emoção que aquela figura passa para nós; para mim, no caso.

Uma dessas artistas é HELENA PINTO DE CARVALHO que, há 81 anos falecia precocemente em São Paulo.

Em 2008 fiz uma postagem sobre ela, por ocasião do centenário de seu nascimento. Foi uma das mais acessadas postagens da história desse Blog, com 3231 visitas em sua página. Em 2014, novamente eu postei o artigo, intitulado A Nobreza da MPB. Aproveitando as bases desse artigo, escrevo um novo, atualizado e com novas informações a respeito dessa interessante cantora que, vinda da alta sociedade paulistana, sendo filha de um conde carioca, abraçou o samba e a marchinha. Seu esposo, um bem sucedido engenheiro, ao que parece, foi um homem compreensivo para seu tempo, pois permitia que sua esposa se destacasse no rádio, disco, em apresentações e, até, no cinema, tornando-se uma das mais populares e queridas interpretes do começo dos anos 30.


Nascida Helena Falcão Huet Bacellar, em São Paulo, no dia 05 de outubro de 1908, era filha de Francisca Falcão (nascida no Ceará e criada em Bauru – SP), sendo uma rica proprietária de terras. Depois de ficar viúva e com uma filha pequena (também Francisca, nascida em 1894), Francisca Falcão se casou com o conde e engenheiro da Estrada de Ferro Sorocabana Joaquim Huet Bacellar, nascido no Rio de Janeiro. Dessa união nasceram Helena e Mariana (1913).

A família Huet Barcellar vai morar no Rio de Janeiro e, com a morte de Joaquim, em 1923, Francisca volta a São Paulo com as filhas.

A pesquisadora e jornalista Thais Matarazzo escreveu uma monografia sobre Helena Pinto de Carvalho. Segundo entrevistas com parentes da cantora, “desde criança sentia vontade de cantar, era extrovertida, alegre, culta, amava a arte e cantava somente em casa em reuniões familiares”.

Nos anos de 1920 houve uma revolução dos costumes. As mulheres que ate então usavam roupas longas, escondendo seus corpos, passaram a usar saias curtas, com as pernas à mostra e várias aderiram ao novo corte de cabelo À la Garçonne, onde as longas madeixas davam lugar a um corte curto, com a nuca exposta. Nessa época, Surge o Rádio no Rio de Janeiro (1922), em São Paulo acontece a Semana de Arte Moderna (1922) e, novamente no Rio de Janeiro, era inaugurada a era das gravações fonográficas elétricas (1927), onde não só tenores e sopranos podiam registrar suas vozes. Nesse período efervescente de nossa cultura a jovem Helena se casa em 1927, aos 19 anos. Seu esposo, o engenheiro Paulo Pinto de Carvalho, tinha 34 anos. Paulo se mostraria um homem sem preconceitos e a frente de seu tempo, pois, iria incentivar sua esposa a abraçar a carreira artística.

Apresentando-se no rádio paulistano desde 1929, Helena Pinto de Carvalho seria uma das cantoras pioneiras nesse setor e nos discos Victor.

Seu primeiro disco foi gravado em maio de 1930 e trazia o samba-canção de Gáudio Viotti, X. Y. Z. e J. Canuto “Teus olhos me contam tudo” no lado A; o lado B trazia o samba de Ary Kerner “Morena cor de canela”, música gravada anteriormente pelo cantor Sylvio Salema e pela cantora Elsie Houston.

Nos discos alternava seu nome como em “Helena P. de Carvalho" ou “Helena de Carvalho.

Entre 1930 e 1931, gravou 7 discos e 14 músicas nas gravadoras Victor e Columbia. Os compositores eram os nomes de destaque da época como Napoleão Tavares, o também cantor Jayme Redondo, Ary Kerner e os veteranos Chiquinha Gonzaga e Marcello Tupynambá. Foi versátil em sua pequena discografia.

Sua voz, clara e harmoniosa, possuía, como se falava na época, brejeirice.

Dominava bem os sambas e marchinhas que interpretava. Basta ouvirmos Num sorriso dos teus, samba canção de Napoleão Tavares e Jayme Redondo, que teremos sua interpretação destilando romantismo e uma sutil sensualidade; Sou morena, Canção de Chiquinha Gonzaga e Viriato Correa, onde ela é brejeira e sedutora ou em Nhá Carola, marcha de Petit (Hudson Gaya) que, ao lado do cantor Pilé, encarna a caipira engraçada que busca casamento, mas finge desdenhar do seu amado.

Em todas as músicas a cantora imprimia uma interpretação romântica, mesmo em estilos diferentes.


Esse Jeitinho que Você Tem

Não tardou para que seu talento fosse cada vez mais reconhecido e divulgado. Em 1931 é convidada a participar do primeiro filme musical feito no Brasil, Coisas Nossas.

E cabe a ela ser a primeira cantora a aparecer no filme, sendo apresentada pelo poeta Guilherme de Almeida. Acompanhada ao piano canta, de seu repertório, a toada Esse jeitinho que Você Tem, de Marcello Tupinambá, com um ritmo mais lento, mais romântico.






Helena Pinto de Carvalho em cena do filme Coisas Nossas, 1931.
Revista O Cruzeiro.
Arquivo Nirez


Após as filmagens dará entrevista à revista A Platea, de São Paulo.
Em sua monografia, Thais transcreveu a matéria, onde se lia que Helena estava “elegantíssima numa criação parisiense em cor verde veio até o nosso ‘bureau’ de trabalho, em companhia do seu esposo Sr. Paulo Pinto de Carvalho”.

Perguntada sobre a experiência de representar para uma câmera, a cantora respondeu: “Fiquei nervosíssima”.

Sobre o futuro: “Eu não alimento programas no meu cérebro. Em todo caso, se meu trabalho agradar e a fabrica novamente me chamar, não tenho motivos para recusar o convite. A arte é uma coisa tão linda”.

Em relação ao futuro do cinema brasileiro, afirmou que acreditava em “um futuro brilhante para o cinema nacional. É claro que não são nas capitais, cuja gente muito ‘rafineé’ e cheia de historias, há de sempre encontrar aqui ou ali um senão para criticar. Mas como o Brasil não é formado pelas capitais e sim, ele é todo esse aglomerado quase infinito de vilas e cidadezinhas, que se espalham do Amazonas ao rio Grande do Sul, eu creio que não exagerei, se disser que tenho certeza do triunfo da nossa cinematografia”.

Helena afirmou que o canto sempre foi um de seus maiores prazeres, principalmente a canção brasileira.

A entrevista segue:
“E qual é o seu maior sucesso? Indagamos.

Mme. Pinto de Carvalho teve um olhar de modéstia. Para encoraja-la, nós lhe dissemos que as mulheres bonitas não gostam nunca de falar de si. Acham mais interessante que os outros digam. Mme sorriu afinal se decidiu:

- Acho que fui ouvida com muito carinho, em “Jeitinho que você tem...” Alias, está é minha canção preferida”.


Diário Carioca, 27 de novembro de 1931, p.2
http://memoria.bn.br



Estrela Cadente

Sua participação nos rádios continuou. Nos anos seguintes, ficou mais escassa por conta de excursões artísticas pelo Brasil e, segundo o pesquisador Abel Cardoso Junior, Europa. Aliando suas atividades artísticas, trabalhava como funcionária pública ao lado do marido como chefes na Seção Contabilidade e Departamento de Municipalidades de São Paulo.

Durante muitas décadas, pouco ou nada se soube sobre Helena. Em 1988 a empresa Revivendo, situada em Curitiba e especializada em relançar gravações de nomes da MPB da Época de Ouro, lançou o LP intitulado “Jóias de Nossa Música” enfocando Mário Reis, Moreira da Silva, Sônia Carvalho e Helena Pinto de Carvalho. Dos três nomes, somente Helena deixava uma lacuna sobre seu paradeiro. O próprio organizador das biografias contidas no disco, Abel Cardoso Junior, desconhecia onde ela estaria. Essa curiosidade foi desfeita mais de vinte anos depois, quando a jovem pesquisadora Thais Matarazzo, de São Paulo, resolveu pesquisar sobre as cantoras dos anos 30. A descoberta do paradeiro da cantora veio acompanhada de uma surpresa.

No dia 5 de dezembro de 1937, um domingo, às 23 horas, Helena sentiu-se mal. Segundo Vera, sua sobrinha que na ocasião contava com 11 anos e se encontrava em sua casa, em entrevista à Thais quase 60 anos depois, afirmou que sua tia deu um grito muito alto e foi encontrada deitada na cama, já morta. Mais surpreendente foi a causa: enfarte fulminante. Ela tinha 29 anos.

Embora os jornais tivessem lamentado a perda de um nome de peso do radio paulistano, integrante do elenco da Rádio Cultura, seu nome foi sendo esquecido através dos anos, devido a pouca memória de nosso país.

Assim como Yolanda Osório e Ita Cayubi, Helena Pinto de Carvalho foi uma das promessas lançadas em disco no longínquo ano de 1930. Como suas colegas, não decepcionou. Teve, até, mais sorte que muitas dela, uma vez que o esposo era seu fã numero um e grande incentivador, ao contrário dos demais conjugues da época, que “aposentavam” suas esposas da carreira artística através do casamento. Poderia ter sido uma socialite dos dourados anos 30, usando o título de nobreza de seu pai. Ao contrário, abraçou o samba e a marchinha e fez do cateretê, sua canção favorita; ritmos que ela tão bem dominou e interpretou seja nas capitais ou nas cidades do interior, pelo país afora. E sempre se negando a cantar estilos estrangeiros, numa valorização à música popular brasileira.

Na leva de jovens e modernas cantoras que a safra de 1930 lançou, e que foi liderada pela iniciante Carmen Miranda, Helena saiu-se de forma notável.

Sobre como seria sua carreira, caso a morte não a tivesse levado tão cedo, Thais responde: “Helena era uma cantora eclética, não tinha filhos, seu marido era aquiescente com sua carreira, sempre que podia se apresentava em shows de teatro, com outros cantores, acho que ela continuaria cantando e atuando talvez na televisão, não em cassinos, por que ela era membro da alta sociedade, ainda com tabus”.


Para Todos 09 de janeiro de 1932
http://memoria.bn.br





Gravações de Helena Pinto de Carvalho na Victor


Como Helena de Carvalho nos selos dos discos Victor


TEUS OLHOS ME CONTAM TUDO



Samba com melodia de Gaudio Viotti e letra de X. Y. Z. e J. Canuto
Gravado por Helena de Carvalho
Acompanhamento da Orquestra Victor Paulista (2 saxes, banjo, tuba, piano, 2 trompetes e 1 trombone)
Disco Victor 33.293-A, matriz 50260-1
Gravado em 20 de maio de 1930 e lançado em julho



MORENA COR DE CANELA



Samba de Ary Kerner Veiga de Castro
Gravado por Helena de Carvalho
Acompanhamento da Orquestra Victor Paulista (2 saxes, banjo, tuba, piano, 2 trompetes e 1 trombone)
Disco Victor 33.293-B, matriz 50262-2
Gravado em 20 de maio de 1930 e lançado em julho



FOGO FOGUINHO


Samba Canção com melodia de Chiquinha Gonzaga e letra de Viriato Correia
Gravado por Helena de Carvalho
Acompanhamento de Max Cardoso e Arnaldo Pescuma aos Violões e Coro
Disco Victor 33.325-A, matriz 50371-2
Gravado em 05 de julho de 1930 e lançado em agosto
Da opereta Jurity



SOU MORENA


Canção com melodia de Chiquinha Gonzaga e letra de Viriato Correia
Gravada por Helena de Carvalho
Acompanhamento de Orquestra (2 violinos, cello, flauta e piano) e Coro de duas vozes masculinas
Disco Victor 33.325-B, matriz 50369-2
Gravado em 05 de julho de 1930 e lançado em agosto
Da opereta Jurity



CHINELINHA DO MEU AMOR


Canção com melodia de Chiquinha Gonzaga e letra de Viriato Correia
Gravada por Helena de Carvalho
Acompanhamento de Orquestra (2 violinos, cello, flauta e piano) e Coro de duas vozes masculinas
Disco Victor 33.325-A, matriz 50370-1
Gravado em 05 de julho de 1930 e lançado em 1930
Da opereta A Sertaneja



NÃO CHORA


Samba de João da Gente
Gravado por Helena de Carvalho
Acompanhamento de Orquestra (2 saxes, trompete, banjo, trombone, tuba e piano) e Coro de duas vozes masculinas
Disco Victor 33.390-A, matriz 50377-4
Gravado em 08 de julho de 1930 e lançado em dezembro



NHÁ CAROLA


Marchinha de Hudson Gaya (Petit)
Gravada por Helena de Carvalho e Pilé
Acompanhamento de Orquestra (2 saxes, 2 trompetes, trombone, tuba, banjo, piano e traps)
Disco Victor 33.390-B, matriz 50493-2
Gravado em 22 de setembro de 1930 e lançado em dezembro











Agradecimentos:
À Thais Matarazzo
Ao Arquivo Nirez










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